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1ª antropóloga brasileira, Gioconda Mussolini enfrentou machismo na academia

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Retrato mais conhecido de Gioconda Mussolini, a primeira antropóloga do Brasil (Foto: Andrea Ciacchi )
Retrato mais conhecido de Gioconda Mussolini, a primeira antropóloga do Brasil (Foto: Andrea Ciacchi )

Gioconda Mussolini foi a primeira mulher, no Brasil a escolher a Antropologia como profissão e inaugurou essa linha de estudo no país. Mas ela não é tão lembrada quanto deveria: enfrentou vários desafios para ingressar no meio acadêmico predominantemente masculino do século 20.

Apesar do sobrenome ser o mesmo do famoso ditador fascista italiano Benito Mussolini, ela não tinha parentesco (ou afinidade ideológica) com o déspota. Mas a coincidência inconveniente pesa no renome da pesquisadora, segundo defende o antropólogo Andrea Ciacchi, que estuda a vida da ex-professora universitária há quase 15 anos. Ele acredita que isso pode ter sido um problema também no passado.

“Quando Benito Mussolini se tornou conhecido mundialmente como liderança internacional negativa, nos anos 1930, eu me pergunto como teria sido para ela viver no Brasil, em São Paulo, com esse sobrenome tão pesado”, comenta Ciacchi, que é professor na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu (PR), em entrevista a GALILEU.

Enquanto o professor ainda investiga de que forma o contexto da Segunda Guerra Mundial pode ter afetado Gioconda em vida, uma coisa é unânime nos estudos já publicados sobre ela: a trajetória dessa mulher não foi nada fácil. Nascida em 15 de novembro de 1913, terceira de sete filhas do imigrante italiano Umberto Mussolini, ela foi a primeira da família a frequentar a universidade.

Apesar da origem pobre, ascendeu à classe média e morou com seus familiares na capital paulista, no bairro do Bom Retiro, e depois nos bairros da Luz e dos Campos Elísios. Foi professora primária na Escola Normal Padre Anchieta, em 1931, e depois lecionou na rede pública, no distrito rural de Jacupiranga, no litoral sul do estado.

Quando voltou à cidade de São Paulo, em 1933, fez um aperfeiçoamento como professora primária. Mas a verdadeira reviravolta intelectual ocorreu somente quatro anos depois, quando ela se formou no curso de Ciências Sociais da então recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP).

Foi aí que Gioconda enfrentou aquele que seria seu maior desafio: encarar a predominância masculina no ensino superior, em um contexto no qual o estudo antropológico ainda sequer existia oficialmente por aqui.

“A antropologia nasce no Brasil nos final dos anos 1930 quando antropólogos estrangeiros formam uma primeira turma. Gioconda pertence a essa primeira turma e é depois a primeira que assume na própria Faculdade de Filosofia da USP o ensino de antropologia”, explica Ciacchi.

Como docente na universidade, a mãe da antropologia no Brasil lecionou e se aproximou da primeira e segunda gerações de cientistas sociais brasileiros, entre eles Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso. Em 1944, antes de obter o título de mestre, esteve na importante Cadeira de Antropologia da instituição, que era até então chefiada pelo professor alemão Emilio Willems.

Assinatura de Gioconda Mussolini (Foto: Andrea Ciacchi )
Assinatura de Gioconda Mussolini (Foto: Andrea Ciacchi )

Pioneirismo duplo

Além de ser a antropóloga pioneira do Brasil, Gioconda revolucionou ainda mais ao assumir um objeto de pesquisa nunca estudado antes: as populações de pescadores caiçaras no litoral norte de São Paulo, sobretudo em Ilhabela.

O tema nunca antes explorado carregava uma carga preponderantemente masculina, reforçada por uma lenda caiçara que dizia que mulheres não podiam subir nos barcos pois “daria azar”. Mas, ao que tudo indica, isso não impediu a pesquisadora de investigar essa cultura.

“Gioconda não contou expressamente como fez as pesquisas, mas pelas descrições feita em seus artigos, é certo que ela subiu nas canoas caiçaras. Ela descreve de forma tão realista as técnicas de pesca, como a pesca da tainha, que se vê muito claramente que ela teve um cuidado descritivo que não existia antes”, detalha Ciacchi.

Praticamente todos os estudos aprofundados de Gioconda sobre os pescadores do litoral norte paulista, que ela realizou entre 1945 e 1968, foram reunidos após a morte dela na importante coletânea Ensaios de Antropologia Indígena e Caiçara, publicada em 1980 pelos seus colegas acadêmicos Antonio Candido e Edgard Carone.

População caiçara com canoas em Ilhabela, litoral norte de São Paulo (Foto: Reprodução/Youtube/Espaço Cultural Pés no Chão)
População caiçara com canoas em Ilhabela, litoral norte de São Paulo (Foto: Reprodução/Youtube/Espaço Cultural Pés no Chão)

A última aula da professora mais querida

Gioconda Mussolini era conhecida como uma excelente e amorosa professora. Durante os anos da ditadura militar no Brasil (1964-1985), ela ajudou a esconder alunos que eram perseguidos pelo regime por pertencerem ao movimento estudantil de resistência.

“Quando a Faculdade de Filosofia da USP foi ocupada pelos estudantes e houve vários problemas com a polícia, Gioconda prestou ajuda e chegou a dormir na faculdade algumas noites”, conta Ciacchi. “Ela tinha uma proximidade com os estudantes, mesmo sem ser militante”.

A professora nunca se casou, mas dedicava-se aos alunos como se fossem filhos. Sua devoção era tanta que sua morte veio logo depois dela ter dado sua última aula, em maio de 1969, quando tinha 55 anos.

Assim que saiu da sala, Gioconda pegou carona com a colega professora Ruth Cardoso, outro nome famoso na antropologia do século 20. Começou a passar mal e foi levada ao hospital, onde faleceu dois dias depois, no dia 28 de maio de 1969. A causa da morte: um aneurisma cerebral.

A tese nunca defendida

Tragicamente, a primeira antropóloga do Brasil faleceu antes de defender sua tese de doutorado, cujo título provisório era Estudos pioneiros sobre os caiçaras de Ilha Bela e estava praticamente pronta. O atraso na publicação teria ocorrido pela falta de apoio do orientador, Egon Schaden, catedrático de Antropologia da USP.

Egon Schaden, antropólogo orientador de Gioconda Mussolini (Foto: Divulgação/DVD Egon Schaden -uma trajetória antropológica)
Egon Schaden, orientador de Gioconda Mussolini (Foto: Divulgação/DVD Egon Schaden -uma trajetória antropológica)

As cátedras de departamentos universitários nos anos 1960 tinham predominância de homens brancos, e defender uma tese daquele nível era a etapa hierárquica necessária para ocupar o topo da cadeira de professor catedrático. Mas Gioconda, por ser mulher, teria sido vista como “inadequada” para o cargo.

“A minha hipótese é que o orientador dela na época [Schaden] não a ajudou a defender a tese porque sabia que, quando ele se aposentasse, Gioconda se tornaria a chefe da cadeira. Mas ele preferia que [o chefe] fosse um homem”, avalia Andrea Ciacchi. “Várias pessoas que conheceram Egon e Gioconda, como a própria Ruth Cardoso, me confirmaram isso.”

O antropólogo atualmente está estudando 490 páginas datilografadas deixadas pela ex-professora da USP, que fariam parte da tese não concluída dela. O pesquisador analisa os originais junto a Heloísa Pontes, supervisora e antropóloga, e Acauã Capucho, estudante de história na UNILA .

A intenção é publicar, em breve, a tese de doutorado de Gioconda, como forma de homenagear o legado da mulher que foi pilar para a antropologia do Brasil. “Publicar a tese de doutorado dela será para reparar um pouquinho as injustiças que ecebeu”, afirma o estudioso.

Galileu