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500 mil vítimas da Covid-19: os relatos de quem enfrentou o coronavírus

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Ninguém imaginava que o vírus que parecia tão distante na China causaria tamanho impacto em todo o mundo. A Covid-19 instalou uma pandemia que causou mais de 500 mil mortes no Brasil. Com uma marca negativa tão expressiva, a população se questiona: será que a maioria desses óbitos poderia ter sido evitada se houvesse vacina? Além disso, será que depois de mais de um ano, conseguimos enxergar as histórias por trás destes dados?
Diversas pesquisas buscaram entender como o vírus age no organismo humano e como a vacina funciona como agente de transformação, sendo que ainda há diversas dúvidas sobre a imunidade após as doses ou as sequelas causadas por quem se recupera. Neste momento, o país tenta acelerar a vacinação em todas as regiões e recebe milhões de doses de vacinas da Pfizer, AstraZeneca e CoronaVac.

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Além do número alarmante de mortes, o Brasil totaliza 17.883.750 casos e tenta se salvar de uma nova crise de superlotação no sistema de saúde pública, já que não há suprimentos e leitos hospitalares para atender todas as pessoas infectadas com Covid-19.

Dentro de todo esse contexto da pandemia, houve quem conseguiu superar a doença e voltar para casa vivo.

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Os principais sintomas da Covid-19 foram explicados para a população logo no início da pandemia, e Rosival Pagliotto, de 52 anos, os sentiu na pele. Tudo começou com muita falta de ar e um desânimo além do normal. Depois veio a falta de paladar. “Fiquei dois dias e duas noites na Unidade de Saúde de Cascavel, no Paraná, e foram constatados os problemas. Me colocaram no oxigênio rapidamente”, contou. Para seguir com o tratamento, o empreendedor foi transferido para a cidade de Nova Aurora, no interior do estado, onde ficou internado por 13 dias.

Rosival Pagliotto
Rosival Pagliotto. Créditos: Arquivo pessoal

Lá, ele recebeu antibióticos, fez coleta de sangue e monitoramento dos pulmões, já que o nível de oxigênio estava crítico. “[Foi] Sofrido, muita fraqueza, muita diarreia e apetite voltando em marcha lenta, nesse processo todo, eu tive a sorte de me recuperar”, disse Pagliotto.

Mesmo após a alta do hospital, o paranaense afirmou que precisou de mais 15 dias para ficar 100% bem. “Foi um mês de batalha pela vida e agora já tomei a primeira dose da vacina, devo ser chamado para segunda dose nos próximos meses”, comemorou Pagliotto, que agradeceu o apoio recebido da família e da equipe médica.

Nível de circulação do vírus

Após quase um ano e meio da primeira infecção por Covid-19 no Brasil, a transmissão do vírus segue em níveis “extremamente altos” no país, como informou um mapa inédito feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O que significa que a pandemia do novo coronavírus continua descontrolada em território nacional.

Os dados do SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe), também indicam uma evolução do número de hospitalizações por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).

A circulação do vírus fez com que Beatriz Gorga Conte vivenciasse os sintomas iniciais. Ela precisou  do auxílio do marido para detectar a doença, pois ambos testaram positivo. “Quem ficou mal foi ele e eu fui como acompanhante, ele ficou internado e em um dos dias comecei a me sentir mal, com falta de ar e tosse”, disse a empresária.

O casal ficou internado no mesmo quarto, enquanto ele estava melhorando, ela chegou a um ponto em que não conseguia respirar. “Eles tiveram que me levar para a UTI e lá fiquei por nove dias, fui intubada e não me lembro de nada desse momento”, contou. Beatriz chegou a ter um infarto e perder as forças vitais de maneira preocupante, ficando extremamente frágil ao receber alta e voltar para casa.

Contrariando a taxa de mortalidade

Ninguém imagina que irá contrair o vírus, até contrair. Esse foi o caso de Ramon Alfonsin, economista e comerciante de 69 anos que seguiu todas as recomendações das autoridades de saúde para se proteger. Mesmo usando máscara e respeitando o distanciamento social, Alfosin testou positivo para a doença e foi recomendado ficar em casa. “Esse vírus é muito forte e eu percebi isso depois de quatro dias, sentindo sintomas diferentes”, falou.

No sétimo dia e com reações mais graves, ele migrou de hospitais em São Paulo e ficou nove dias internado. “Do dia que entrei até o dia que sai, eu tratei de ter a maior calma possível, porque a recuperação é bastante lenta e a cabeça da gente trabalha muito, de uma forma que pode contribuir para o quadro de saúde”, disse. O economista precisou ficar um dia com o aparelho de oxigênio e se perguntou diversas vezes se conseguiria sair dessa situação.

Os encaminhamentos médicos e sintomas oscilam muito rápido dependendo do caso. Alfosin ficou com o pulmão comprometido e exaltou como um “bom hospital e uma boa equipe faz a diferença, ajuda no conforto”. Ele também comentou que tratamentos como fisioterapia são fundamentais para conseguir se recuperar, sendo que a sua maior alegria foi ouvir que estava dispensado.

“Demorou 45 dias após a saída do hospital para me recuperar por completo, com acompanhamento e fazendo atividade física. Hoje a minha vida está normal, já tomei as duas doses da vacina, sem nenhuma reação”, afirmou.

Saindo da capital paulista para o interior do Paraná, mais precisamente em Maringá, Luiz Fernando Pereira sofreu complicações da Covid-19 em novembro de 2020 e ficou internado com sintomas graves. Em fevereiro de 2021, contraiu novamente a doença com sintomas mais leves. O pós-Covid o fez sentir dor muscular e fadiga, sem contar as complicações para respirar.

“Mesmo depois de alguns meses, eu ainda sinto muita dor muscular, não consigo mais dormir direito e tenho dor de cabeça”, revelou. O comerciante de 47 anos é uma das milhares de pessoas que procuram atendimento médico para cuidar de novos problemas de saúde, ou seja, os que não tinham antes de serem diagnosticados com o vírus

Por exemplo, as complicações de saúde costumam ser dores nos nervos e músculos; dificuldades respiratórias; colesterol alto; mal-estar e fadiga e hipertensão. Além de problemas que incluem sintomas intestinais, enxaquecas, anormalidades cardíacas e distúrbios do sono. As informações são de acordo com o maior estudo até o momento sobre sintomas a longo prazo em pacientes com coronavírus, chamado de “pós-Covid”.

Os riscos da pós-Covid

Mesmo curados, os médicos constataram que existe um número significativo de pessoas que contraíram Covid-19 e continuam a sofrer com sintomas da doença. Segundo a National Institute for Health Research, pelo menos 70% dos recuperados terão algum sintoma em até seis meses depois do diagnóstico. A chamada síndrome pós-Covid engloba problemas de saúde, recorrentes ou contínuos.

Com tosses simples no final de 2020, Odina Silva precisou ficar em casa com oxigênio e, ao piorar, precisou ser rapidamente entubada. Ela foi transferida de Cascavel para São Paulo, onde seguiu com o tratamento até o dia 19 de janeiro de 2021. “Fiquei durante algum tempo fora da UTI e após ter alta, permaneci em um hotel e só voltei para casa no final de janeiro”, explicou.

De acordo com Odina, ainda faltam “algumas coisas que a Covid-19 deixou”, como memória afetada e dor no braço, punho e cotovelo. “Eu estive diante da morte, mas fui livrada”, enfatizou.

Problemas neurológicos são uma das condições mais comuns da síndrome pós-Covid, de acordo com o levantamento feito pelo neurologista Luiz Paulo de Queiroz, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que constatou que cerca de 36% das pessoas que passam pela fase aguda da Covid-19 têm algum problema neurológico.

Covid-19 e a juventude

Por muitos meses, o estigma era de que apenas pessoas com comorbidades ou mais velhas estavam sob o risco de pegar a doença. Ao longo da disseminação do vírus, o número de casos entre jovens aumentou consideravelmente e passou a preocupar outra parcela da população.

Diretamente da cidade de Ariquemes, localizada em Rondônia, Samyra Teixeira Abreu viveu o desespero do coronavírus aos 19 anos. A secretária e estudante de psicologia teve muita dor de cabeça e nos olhos. “Tive muito medo, a minha ansiedade ficou terrível por conta da Covid-19 por não saber o que poderia acontecer, qual poderia ser a reação”, detalhou. A sua avó também foi internada e ambas fizeram companhia uma para a outra, com acompanhamento médico com enfermeiras. “Foi lá que a ansiedade se revelou, porque a situação dos sintomas já é algo desconfortável e era muito difícil, o tempo todo eu ficava com o pensamento de não poder desistir”, desabafou a jovem. Sua avó, no momento em que ambas estavam internadas, ficou com 15% do pulmão prejudicado.

Samyra Teixeira Abreu
Samyra Teixeira Abreu. Créditos: Arquivo pessoal

A estudante enfatizou como precisava ser forte e enfrentar seu medo, superando os dias de internação. Segundo Samyra, era difícil assistir as pessoas ‘seguindo a vida’, “sem máscara e nós ali morrendo, com medo”. Durante todos os dias no hospital, ela contou que ignorou tudo para poder focar na melhora de sua avó, porém recebeu a notícia de que seu pai e seu avô também estavam diagnosticados com Covid-19.

“A tristeza tomou conta da minha vó e ela piorou, precisou do oxigênio e quando o resultado dos exames saíram, a doutora a levou para a UTI”, relatou a jovem. Samyra relembrou que conseguiu sair do quarto para ver o restante da família, além de acompanhar sua avó até a porta da UTI. “Aquilo foi uma despedida, sem que nós soubéssemos. Avisaram da UTI que minha vó se desesperou por saber que poderia não voltar mais. Foi uma situação muito difícil e de muito medo, minha vó implorava que não queria ficar sozinha”, contou.

“Eu disse que iria estar esperando [a avó], que ela iria ser forte, mas ela não resistiu”, relatou a jovem emocionada.

Depois do episódio, ela desabou e ficou com muito receio do que poderia acontecer com a sua própria saúde. “Muito medo porque todos da família estavam com o vírus e tive quatro crises pós-Covid”, concluiu. Rosival, Beatriz, Ramon, Luiz, Odina e Samyra são algumas histórias de pessoas que conseguiram sobreviver ao vírus que levou mais de 500 mil vidas no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pede que todos continuem seguindo as medidas de segurança.

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Fonte: Olhar Digital