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A importância de tudo o que não sabemos para a ciência

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A importância de tudo o que não sabemos para a ciência (Foto: Emily Morter/Unsplash)
A importância de tudo o que não sabemos para a ciência (Foto: Emily Morter/Unsplash)

“A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de andar, não teria inventado a roda.” A tirada genial do poeta Mário Quintana pode bem servir para a ciência. A natureza, tudo o que existe, gera em nós uma vontade natural de descobrir. Nossa consciência nos cobra: “vá lá, descubra!” E a Física é um bom exemplo. Quanto mais a gente avança e entende como a natureza funciona, mais perguntas ela nos apresenta.

Para a ciência é meio caminho andado, porque o desconhecimento pode gerar uma série de perguntas; e a outra metade do caminho você pode trilhar com as dúvidas que vão aparecer. É preciso ser criança o tempo todo naquela fase dos “porquês”, chata para alguns, genial para o mundo.

É assim com o nosso conhecimento sobre o Universo. Você pode achar que já resolvemos tudo com o modelo do Big Bang, que mostra a origem do cosmos a partir de um único ponto de densidade infinita dando origem ao espaço, ao tempo e a toda matéria que nele existe. Só que não. As observações experimentais cada vez mais precisas de fato comprovam essa origem e todas as eras já descritas na evolução do Universo, mas traz um monte de outras questões das quais não temos a menor ideia (ainda). E seguimos nessa aventura de conhecimento gerando ignorância, e vice-versa.

Assim é também na física de partículas. Descrita pela teoria quântica de campos, é um pouco difícil na matemática, mas fácil nos conceitos. O Modelo Padrão que descreve as forças fundamentais da natureza detalha como a matéria é feita. Pense em um Lego: uns tijolinhos básicos de construção permitem a criação de muitas outras coisas no Universo. Essas pecinhas básicas são as partículas que formam os átomos que, por sua vez, formam a matéria — eu, você, seu cachorro, estrelas, planetas, poeira, o videogame, pedras, tudo.

Visão do Universo feita pelo telescópio Planck (Foto: ESA, HFI & LFI consortia (2010))
Visão do Universo feita pelo telescópio Planck (Foto: ESA, HFI; LFI consortia (2010))

Apenas três partículas são necessárias para formar a matéria dita normal: os elétrons e os quarks up e down. Porém, no século passado, físicos descobriram outras nove partículas de matéria e mais cinco responsáveis por forças fundamentais da natureza. E por que temos essas partículas extras? Para que servem? Não temos a mínima ideia, ao menos por enquanto.

E tem mais: se apenas três partículas dão conta de construir estrelas, planetas, pizzas e boletos (aff!), isso é só uma fração minúscula do que há de fato no Universo. Somos feitos de algo raro. De toda matéria existente, essa que nos compõe é apenas 5% do total. Outros 27% chamamos de matéria escura, que modifica a velocidade de rotação das galáxias; e os 68% restantes são de “energia escura”, uma espécie de “força” contrária à gravidade responsável por acelerar a expansão do cosmos. E pronto.

Por conta desse desconhecido todo, há milhares de cientistas pelo mundo buscando explicar tudo o que não sabemos, e tantos outros fazendo experimentos na tentativa de se comprovar algum modelo. Com licença para parafrasear o poeta mineiro, podemos dizer então que a ignorância é a mãe da ciência. E a ciência é uma aventura sem dogmas nem verdades absolutas. Como Einstein já dizia: “Uma coisa que aprendi ao longo de minha vida: a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e infantil – e, mesmo assim, é a coisa mais preciosa que temos”.

*Marcelo Lapola é físico, doutorando pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

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