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Alunos podem perder até R$ 40 mil por baixa aprendizagem na pandemia

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Nível de aprendizado no Ensino Médio despencou em 2020, estima estudo (Foto: Feliphe Schiarolli/Unsplash)
Nível de aprendizado no Ensino Médio despencou em 2020, estima estudo (Foto: Feliphe Schiarolli/Unsplash)

Estudantes da rede estadual que concluíram a 2ª série do Ensino Médio em 2020 não entraram com o pé direito em 2021: só em Matemática, o aprendizado foi dez pontos inferior ao que teria sido sem a pandemia de Covid-19. Em Língua Portuguesa, os desafios do ensino remoto levaram à uma perda de 9 pontos neste índice. E o baixo aprendizado durante esse período pode acarretar também em perdas financeiras na carreira desses estudantes. É o que estima o relatório “Perda de aprendizagem na pandemia”, divulgado nesta terça-feira (1) pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e o Instituto Unibanco.

A partir de parâmetros nacionais e internacionais, a pesquisa estimou o impacto da suspensão das aulas presenciais no desenvolvimento dos alunos que irão concluir o Ensino Médio nas redes estaduais até o final deste ano. Na análise, a perda de aprendizagem foi calculada a partir da diferença entre dois índices: o aprendizado esperado antes da pandemia e o aprendizado após o fechamento das escolas.

O estudo usou como base a estimativa do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), segundo o qual, em um ano típico, o índice de aprendizado para o conjunto das séries do Ensino Médio é de 15 e 20 pontos em Matemática e Língua Portuguesa, respectivamente. Para analisar os efeitos da epidemia do novo coronavírus sobre esse cenário, os pesquisadores consideraram três indicadores: a eficácia relativa do ensino remoto versus o ensino presencial; a perda de aprendizado dos alunos que não se engajam no ensino remoto; e o grau de engajamento dos estudantes com o ensino à distância.

Para avaliar o primeiro indicador, o grupo considerou estudos sobre a experiência norte-americana com o ensino online em escolas de ensino fundamental e médio regular. Segundo as pesquisas consultadas, o aprendizado em Linguagem nessa modalidade é apenas 28% do que seria com aulas presenciais – e ainda menor em relação à Matemática: 17%.

Em relação ao segundo indicador, que trata sobre a falta de engajamento, os pesquisadores levaram em conta o chamado “impacto do absenteísmo”, conceito que postula que, para cada dia de aula perdido, o estudante não só perde o conteúdo ensinado na data em que faltou, mas também tem uma perda de proficiência adicional equivalente ao que aprenderia em 1,55 dia de aula.

Por fim, o terceiro indicador considerou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2020, segundo a qual o grau de engajamento dos estudantes do Ensino Médio nas redes estaduais do Brasil foi de 36%. Dessa forma, considerando que houve uma perda de 9 e 10 pontos nas áreas de Português e Matemática durante o ano de 2020, as estatísticas sugerem que uma queda na aprendizagem seria observada mesmo que o engajamento dos estudantes tivesse sido de 100%. No caso da Língua Portuguesa, por exemplo, essa perda teria sido de 3 pontos, “devido à menor eficácia do ensino”.

Por isso, os pesquisadores recomendam o retorno às atividades presenciais “o quanto antes”, mesmo que inicialmente em modelo híbrido. O grupo estima que a volta às aulas com o ensino híbrido, junto ao aumento do engajamento dos estudantes, poderia reduzir a perda de aprendizagem no ano de 2021 em até 20%. O estudo também incentiva a adoção de políticas de combate ao abandono e evasão escolar, ampliação do acesso e qualidade do ensino remoto – além do aumento do engajamento dos estudantes. 

Na ausência de políticas públicas bem-sucedidas direcionadas à recuperação da aprendizagem desses estudantes, o documento estima que a queda no índice poderá ser ainda maior do que 9 (Português) e 10 (Matemática) pontos: de 16 a 20 até o final de 2021.

Renda e desigualdade

Os pesquisadores também ressaltam um dado da literatura segundo o qual um ponto a menos de proficiência é capaz de reduzir a remuneração de trabalho em 0,5% ao longo de toda a vida de um estudante. Assim, a pesquisa estima que, a menos que essas perdas de aprendizagem sejam recuperadas, cada aluno que concluir o ensino médio em 2021 perderá, ao longo de sua vida, entre R$ 20 mil e R$ 40 mil.

“Neste momento, devemos agir para a melhoria da aprendizagem de todos os estudantes, mas com a percepção de que foram afetados de maneira distinta pela pandemia”, acrescenta, em comunicado, Ricardo Paes de Barros, economista e professor do Insper. “Por isso, é necessário ter muito foco em alguns segmentos da população para reduzirmos desigualdades que se ampliaram diante da pandemia”, avalia o líder do estudo.

Galileu