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Analistas alertam para recuperação desigual da economia brasileira

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Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no terceiro trimestre ficaram abaixo do esperado por boa parte dos analistas financeiros. Embora a alta de 7,7% em relação aos três meses anteriores tenha sido um recorde de variação, já era previsto um salto assim após o tombo de 9,6% verificado no segundo trimestre. Com os números, e ponderações sobre os possíveis impactos dos desdobramentos da pandemia sobre a atividade econômica, alguns dos especialistas revisaram suas projeções para o ano e boa parte alertou para a desigualdade no ritmo de recuperação conforme o setor de atuação. Confira algumas das avaliações de analistas consultados pelo Valor:

Itaú – O PIB do terceiro trimestre confirmou a recuperação desigual entre os setores, com produção industrial e comércio numa retomada em “V” e serviços ainda em ritmo lento, afirma Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco. A instituição manteve a expectativa para o PIB de 2020, de queda de 4,1%, e para o quarto trimestre, quando deve mostrar avanço de 2,9% ante os três meses anteriores. Para 2021, Barbosa estima que a recuperação da economia global, os juros baixos e a normalização dos serviços após a vacinação contra o novo coronavírus jogam a favor da recuperação da atividade. Do lado negativo, podem pesam o recrudescimento da pandemia, com aumento do contágio e mortes por covid-19, e o risco de problemas fiscais, que levariam a uma piora das condições financeiras. “Nesse sentido, tem discurso recente do governo sinalizando a intenção de retirar os auxílios emergenciais e voltar para o teto de gastos. Se isso for confirmado, reduz esse risco negativo fiscal”, disse.

Guide – O crescimento limitado pelo desempenho do setor de serviços demonstra que uma recuperação em forma de “K”, e não de “V”, parece estar em andamento, “aumentando os temores de que uma recuperação desigual também possa ter um impacto desigual no setor privado e na distribuição de renda daqui para frente”, afirma a gestora em relatório. A atividade de serviços foi mais fraca do que o esperado pelos analistas, o que “levanta preocupações sobre os impactos duradouros das pandemias no setor.” A continuação de uma recuperação “tão desigual”, diz a Guide, pode ter implicações nas “políticas voltadas para os que ficaram para trás ao longo da recuperação”, abrindo espaço para o fortalecimento dessas medidas e potencial impacto fiscal. A Guide projeta queda de 5,1% para o PIB neste ano.

Credit Suisse – Diferente de outros pares, o banco melhorou ligeiramente sua expectativa para o PIB de 2020 – de uma queda de 4,6% para baixa de 4,3% -, embora o resultado do trimestre tenha ficado abaixo de suas projeções. “O resultado de hoje mostrou uma recuperação da economia no terceiro trimestre que foi menos forte do que o esperado, mas as revisões feitas na série mais do que compensaram a surpresa negativa”, escrevem Solange Srour e Lucas Vilela em relatório. O PIB de 2019 passou de 1,1% para 1,4%, e o tombo do segundo trimestre deste ano também foi menor na comparação interanual, revisto de -11,4% para -10,9%. Na mesma base de comparação, o PIB do terceiro trimestre melhorou expressivamente (-3,9%), “devido à flexibilização das medidas de distanciamento social e políticas monetárias e fiscais robustas”, afirmam os economistas. “Além disso, o aumento da poupança, de 15,7% do PIB no segundo trimestre para 17,3% do PIB do terceiro trimestre, reforça um cenário mais favorável para o consumo no próximo ano, com possibilidade de término de ajuda governamental e de recuperação gradual do mercado de trabalho”, dizem.

Citi – Os analistas do banco também frisaram a retomada mais fraca que o esperado dos serviços e apontaram que o crescimento de 11% nos investimentos e de 7,6% no consumo das famílias foram os principais responsáveis pelo resultado do terceiro trimestre”. “No curto prazo, a crescente evidência de uma segunda onda de covid-19 no Brasil deve desacelerar significativamente o crescimento no quarto trimestre de 2020 e primeiro trimestre de 2021, enquanto o início da inoculação da vacina (provavelmente no segundo trimestre de 2021) deve aliviar gradativamente o choque de oferta, abrindo espaço para uma aceleração do crescimento depois disso”, dizem os economistas Leonardo Porto e Paulo Lopes. O Citi estima uma queda de 5,1% no PIB de 2020, com crescimento de 3% no próximo ano.

MB – A consultoria piorou sua projeção de queda do PIB de 2020 de 3,8% para 4,3%. Sergio Vale, economista-chefe da MB, diz que se esperava uma evolução melhor da agropecuária dentro do PIB do terceiro trimestre, que cresceu 0,4% de julho a setembro em relação a igual período do ano passado. Também houve frustração com o setor de construção. A MB, porém, elevou a estimativa de crescimento de 2,2% para 2,6% em 2021, em razão de redução mais expressiva de bases de comparação em relação a 2020. “Ou seja, é uma economia que se recupera em razão da base baixa, mas não é uma recuperação que vai além da base.”

Barclays – As projeções do Barclays para 2020 e 2021, de queda de 4,4% e alta de 3,5% do PIB, respectivamente, foram mantidas. Roberto Secemski, economista-chefe do Barclays para o Brasil, foi mais um a frisar que a retomada foi desigual entre os setores: a atividade do comércio, que compõe o PIB dos serviços, foi a única a recuperar o patamar pré-pandemia, impulsionada pelo auxílio emergencial. “Na nossa visão, as diferentes velocidades de recuperação estão provavelmente relacionadas às elevadas transferências fiscais para famílias, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento assim que os estímulos forem retirados”, alerta o economista. Outra ameaça ao processo de retomada viria de uma nova e significativa aceleração de casos de covid-19, que poderia impor restrições adicionais à atividade, acrescentou.

Goldman Sachs – O complexo quadro da covid-19 no país e a eliminação das medidas de apoio fiscal vão “suavizar o ritmo de retomada da atividade”, afirma Alberto Ramos, diretor de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs. Esse ritmo moderado, escreve o economista em relatório a clientes, deve prevalecer “até que a implantação de programas de vacinação em massa permitam maior mobilidade e atividade, particularmente no setor de serviços”. Segundo o banco, apesar do crescimento significativo do terceiro trimestre, o PIB ainda está 4,1% abaixo do quarto trimestre de 2019 e 7,3% abaixo de seu melhor momento, no segundo trimestre de 2014. Ramos espera queda de 4,5% no PIB deste ano. Para 2021, a estimativa é de crescimento de 3,5%.

Safra – O desempenho da construção civil foi a principal surpresa negativa no PIB do terceiro trimestre. Com base na forte produção de insumos típicos da construção civil e no aumento das vendas de materiais, o banco esperava crescimento de 7,7% no segmento sobre o mesmo período do ano passado. O IBGE informou queda de 7,9%. “Apesar do resultado bastante negativo e surpreendente, estimamos que este setor, extremamente sensível à taxa de juros, deve impulsionar o crescimento econômico nos próximos trimestres”, escrevem economistas do banco. O Safra manteve a expectativa de queda de 4,1% no PIB deste ano. Para 2021, a estimativa é de crescimento de 4,5%.

Haitong – O banco projeta retração de 4,5% em 2020 e pontua a incerteza sobre a magnitude do crescimento de 2021 por causa do recrudescimento da pandemia. “Podemos ter um fim de ano pior e um primeiro trimestre próximo de zero a negativo”, afirma Flávio Serrano, economista-chefe do banco, para quem o crescimento do PIB do próximo pode ser menor que o 3,4% estimado. A vacinação, diz, ainda deve levar certo tempo.

ABC Brasil – O consumo das famílias e a formação bruta de capital fixo cresceram menos que o esperado no PIB do terceiro trimestre. Para o banco, o resultado deixa a projeção para o PIB deste ano mais próxima de queda de 5,8%. Antes da divulgação do dado do terceiro trimestre, o banco estimava queda de 4,8%.

(Com reportagem de Anaïs Fernandes, Ana Conceição, Hugo Passarelli, Marta Watanabe e Arícia Martins)

Fonte: Valor Econômico