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As origens do conflito entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh

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Entenda o conflito entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh. Acima: soldado azerbaijano dispara canhão na linha de frente do conflito (Foto: Azərbaycan Respublikası Müdafiə Nazirliyi / Ministry of Defense of the Republic of Azerbaijan)
Entenda o conflito entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh. Acima: soldado azerbaijano dispara canhão na linha de frente do conflito (Foto: Azərbaycan Respublikası Müdafiə Nazirliyi / Ministry of Defense of the Republic of Azerbaijan)

A pequena região de Nagorno-Karabakh, situada entre a Armênia e o Azerbaijão, tem chamado a atenção do mundo nos últimos meses, quando problemas que assombram a área desde o fim da Guerra Fria voltaram à tona.

Os conflitos começaram em julho e, desde então, vêm se acirrando. Em nota, a Embaixada da Armênia no Brasil divulgou que, até o último dia 21 de outubro, o número de baixas entre os militares do Exército de Defesa de Artsakh (outro nome do território) chegou a 839 militares. Entre civis, 36 morreram e 115 ficaram feridos. Já a Embaixada do Azerbaijão no Brasil informou por e-mail a GALILEU que o país contabilizou 63 civis mortos e 298 feridos entre os dias 27 de setembro e 23 de outubro. As baixas de militares não foram divulgadas até a publicação da reportagem.

As imagens do conflito revelam que ambos os lados estão usando uma ampla gama de equipamentos militares, incluindo tanques pesados, artilharia de longo alcance e drones.

Em amarelo, a região chamada Nagorno-Karabakh. Em verde e branco, região autoproclamada República de Artsakh (ou República de Nagorno-Karabakh) (Foto: Wikimedia Commons)
Em amarelo, a região chamada Nagorno-Karabakh. Em verde e branco, região autoproclamada República de Artsakh (ou República de Nagorno-Karabakh) (Foto: Wikimedia Commons)

Nas últimas três décadas, gerações de armênios e azerbaijanos assistiram aos conflitos se acentuarem e atenuarem ao longo dos anos — muitas vezes influenciados por outras potências globais, como Rússia e Turquia, reacendendo profundos desentendimentos que remontam há mais de cem anos.

E é justamente a relação atual de Nagorno-Karabakh com esses dois países que torna os atritos na área motivo de preocupação global. Entenda o contexto:

A região de Nagorno-Karabakh pré-1988
Ainda no século 19, o Cáucaso já era uma região fronteiriça importante, pois dividia os gigantes impérios Russo e Otomano, dos quais Azerbaijão e Armênia eram parte, respectivamente. A chegada do século 20, entretanto, trouxe tensões internas para essas duas potências — e entendê-las é crucial para compreender “quem está do lado de quem” no conflito atual em Nagorno-Karabakh.

Durante e após a Primeira Guerra Mundial, antes de conquistarem sua independência, os armênios foram isolados, perseguidos e assassinados por parte dos otomanos, um massacre que ficou conhecido como Genocídio Armênio e tirou a vida de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Mais ou menos no mesmo período, a Revolução Russa levou à dissolução do Império Russo em 1918, o que resultou no surgimento do Azerbaijão e outros países.

As duas nações coexistiram apenas até 1920, quando a Rússia voltou sua atenção para os estados independentes da região do Cáucaso e começou a incorporá-los ao que se tornaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). À época, a região de Nagorno-Karabakh foi concedida à República Socialista Soviética Armênia, o que mudou logo depois, em 1923, quando Joseph Stalin tornou a área parte da República Socialista Soviética do Azerbaijão.

Acontece que 94% dos moradores de Nagorno-Karabakh faziam parte da etnia armênia. Além de falarem outra língua e terem o próprio alfabeto, a maioria dos armênios que viviam ali eram cristãos e passaram a ser comandados por um Estado majoritariamente muçulmano.

Com o domínio soviético, contudo, os conflitos na região permaneceram “abafados” por boa parte da Guerra Fria. Mas, em 1988, quando a queda da União Soviética se tornou iminente, as tensões entre Armênia e Azerbaijão escalonaram rapidamente — evento que levaria ao sangrento conflito que dura até hoje.

As fronteiras entre Pérsia, Império Otomano e Império Russo antes da Primeira Guerra Mundial (Foto: Wikimedia Commons)
As fronteiras entre Pérsia, Império Otomano e Império Russo antes da Primeira Guerra Mundial (Foto: Wikimedia Commons)

Nagorno-Karabakh pós-União Soviética
No fim de 1991, os habitantes de Nagorno-Karabakh declararam independência do Azerbaijão com o apoio da Armênia. O anúncio, como já era de se esperar, não agradou nem um pouco os azerbaijanos, que tentaram reestabelecer sua autoridade na área. 

“Entre 1991 e 1994, ambos os lados sacrificaram mais de 30 mil pessoas e limparam um ao outro etnicamente das áreas sob seu controle”, explica Kevork Oskanian, pesquisador da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, em texto publicado no The Conversation. “Um cessar-fogo foi finalmente assinado em 1994, deixando a República de Nagorno-Karabakh [ou República de Artsakh] não reconhecida e uma faixa de terra ao seu redor em mãos armênias.”

Desde então, os moradores da área fizeram diversas eleições independentes e, em 2006, até realizaram um referendo que aprovou uma constituição própria. Dois anos depois, o então presidente armênio Serzh Sarkisyan, nascido em Nagorno-Karabakh, e o então presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, assinaram um acordo histórico comprometendo-se a intensificar os esforços para uma resolução do conflito.

Ao longo da última década, as autoridades de ambas as nações tiveram atitudes simbólicas que deram esperanças a quem sonha com a paz na região. No entanto, também foi grande o número de novos desentendimentos — e, em julho de 2020, a disputa entre armênios e azerbaijanos por Nagorno-Karabakh ressurgiu.

O cenário atual

Em 2020, os governos da Armênia e do Azerbaijão voltaram a se atacar acusando um ao outro de ter violado o cessar-fogo em Nagorno-Karabakh. Desde então, a situação escalonou rapidamente e, em setembro, o clima já era de guerra, com ataques ocorrendo na fronteira entre os dois países.

Como explica Kevork Oskanian em seu texto publicado no The Conversation, o Azerbaijão tem mostrado frustrações crescentes com as negociações acerca de Nagorno-Karabakh nos últimos anos. Além disso, o país investiu bilhões de “petrodólares” em equipamentos militares para tentar recoquistar o controle da área.

Em verde escuro, a região chamada Nagorno-Karabakh. Em verde claro, região autoproclamada República de Artsakh (ou República de Nagorno-Karabakh) (Foto: Wikimedia Commons)
Em verde escuro, a região chamada Nagorno-Karabakh. Em verde claro, região autoproclamada República de Artsakh (ou República de Nagorno-Karabakh) (Foto: Wikimedia Commons)

“A ausência de uma solução definitiva também permitiu à Armênia apresentar seu controle sobre a República não reconhecida de Nagorno-Karabakh como o novo normal”, afirma Oskanian. “O país também endureceu gradualmente sua posição pública de que as terras ao redor do território também são armênias.”

Stepanakert, capital da República de Artsakhi, após ataques em outubro (Foto: Republic of Armenia/Հայաստանի Հանրապետություն)
Stepanakert, capital da República de Artsakhi, após ataques em outubro (Foto: Republic of Armenia/Հայաստանի Հանրապետություն)

Outras nações
Embora o conflito entre armênios e azerbaijanos dure décadas e já tenha feito milhares de vítimas, a disputa pelos pouco mais de 4,4 mil quilômetros quadrados que compõem Nagorno-Karabakh chama atenção do mundo por outro motivo. Além das questões históricas que geram o envolvimento da Turquia e da Rússia, o conflito está situado em um local-chave da economia mundial.

Isso porque o Cáucaso está entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, região cobiçada pela produção de petróleo e gás natural. É pelo Azerbaijão, inclusive, que passam diversos oleodutos que transportam o material e o levam até a Turquia, de onde é enviado para outros países, principalmente na Europa.

Os oleodutos que passam pelo Cáucaso (Foto: Reprodução Youtube Amit Sengupta)
Os oleodutos que passam pelo Cáucaso (Foto: Reprodução Youtube Amit Sengupta)

Vale pontuar que tanto os turcos quanto os azerbaijanos fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e tradicionalmente tendem a ficar do mesmo lado nas negociações. Não raro, quando a tensão entre a Armênia e o Azerbaijão aumenta, a Turquia fecha suas fronteiras com os armênios — que historicamente recebem o apoio da Rússia.

Já o Irã, que faz fronteira com o Azerbaijão e a Armênia e tem relações complicadas com ambos, não tomou partido. Por lá, as autoridades reclamaram de foguetes e granadas que atingem seu território e decidiram colocar as tropas iranianas na fronteira com os países.

Desconfiança
Em um texto compartilhado no The Conversation, Kristin Bakke, da Universidade College London (Inglaterra); Gerard Toal, da Virginia Tech (EUA); e John O’Loughlin, da Universidade do Colorado em Boulder (EUA), revelam o que observaram em pesquisas realizadas para entender o que querem os moradores de Nagorno-Karabakh.

De acordo com eles, em estudos feitos em 2011 e 2013 a população de Nagorno-Karabakh estava preocupada com a retomada dos combates, não estava disposta a perdoar o que ocorreu ao longo da história e desconfiava fortemente das outras nações. Em uma nova pesquisa, realizada em fevereiro de 2020, o cenário permaneceu similar, com 83% dos entrevistados expressando desconfiança dos povos vizinhos.

“As pessoas querem paz, mas anos de conflito não resolvido fizeram pouco para fomentar atitudes de compromisso em ambos os lados da luta”, pondera o trio no texto. “A propaganda pintando o outro lado como o ‘inimigo’ também não ajudou.”

Galileu