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Brasileiros criam IA que analisa fatores de mortalidade por Covid-19

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Plataforma analisa dezenas de fatores que influenciam mortes por Covid-19 (Foto: Glenn Carstens-Peters/Unsplash)
Plataforma analisa dezenas de fatores que influenciam mortes por Covid-19 (Foto: Glenn Carstens-Peters/Unsplash)

A desigualdade social é o fator que mais contribui para o aumento do número de vítimas da Covid-19 no Brasil. Isso é o que mostra o projeto “O que afeta a mortalidade por Covid-19”, uma plataforma de análise construída por pesquisadores do Laboratório de Inteligência Artifical da Universidade Federal de Minas Gerais (LIA -UFMG) e a Kunumi, organização brasileira com foco em ciência e tecnologias emergentes.

Segundo os estudiosos, o índice de desigualdade brasileiro chega a 53 pontos, bem maior do que a média da amostra estudada (36 pontos), que inclui 87 países ao redor do mundo. “Este foi um dos primeiros padrões observados pela pesquisa e traz à tona a necessidade de um pensamento a longo prazo para diminuir as desigualdades sociais existente no país, a fim de prevenir cenários tão ruins quanto o que estamos vivenciando hoje”, afirma Adriano Veloso, professor chefe do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

O docente foi o responsável por conduzir a criação da plataforma de inteligência artificial que é capaz de apontar quais fatores são mais importantes para a expansão e recuo da pandemia em diversos países. A partir disso, ela prevê a mortalidade diária de determinada região, apontando se irá aumentar ou diminuir.

No caso do Brasil, os pesquisadores também conseguiram analisar o avanço da pandemia nos 26 estados e no Distrito Federal. No Amazonas, por exemplo, o maior agravante para a alta na mortalidade durante a segunda onda foi a falta de leitos em unidades de terapia intensiva (UTI): havia 16 pessoas concorrendo por cada vaga disponível. Além disso, houve uma redução de apenas 2% na mobilidade em estações de transporte, ou seja, a adesão ao distanciamento social foi muito baixa.

Já Minas Gerais, cujo sistema de saúde não chegou a colapsar durante a primeira onda de casos, não conseguiu conter a segunda alta de casos pela falta de vacinação.

Em São Paulo, a ausência de distanciamento social foi a principal responsável pela aceleração da primeira onda: o índice de contenção estava em 69%, abaixo da média nacional. Além disso, a população economicamente ativa continuou a se deslocar para o trabalho: a redução da mobilidade nos transportes foi de apenas 36%.

A plataforma

Disponível para consulta pública, a ferramenta utiliza inteligência artifical para analisar a evolução da pandemia no Brasil e em outros 23 países — mais nações podem ser incluídas na plataforma nas próximas semanas.

A ideia do projeto surgiu a partir da necessidade de criar novas ferramentas para estudar um fenômeno tão complexo quanto a pandemia. Foi assim que as equipes do LIA-UFMG e da Kunumi decidiram alimentar um programa de inteligência artificial com dados públicos sobre o avanço da pandemia em 87 países. As principais fontes de informação são o Banco Mundial, a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Universidade de Oxford, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Atlas Brasil.

A partir desses dados, a tecnologia foi capaz de trabalhar com 65 variáveis que influenciam o número de óbitos por Covid-19, que vão desde comorbidades até questões socioeconômicas e culturais, como coeficiente de Gini, adesão a políticas de distanciamento social e o número de médicos, enfermeiros e leitos de UTI. Em geral, análises como esta levam em consideração uma média de apenas cinco variáveis, o que mostra a eficiência do uso de IA para analisar cenários complexos e identificar variáveis por vezes ignoradas por humanos.

“O foco da ferramenta é a explicabilidade dos fatores que levam ou não a um aumento no número de mortos”, destaca Veloso. Ao reconhecer o que influencia o avanço ou recuo da pandemia em determinada região, o sistema é capaz de prever com maior precisão a evolução da mortalidade pela Covid-19 nesse local.

Na plataforma, o usuário pode encontrar as previsões e os números reais de óbitos das 24 nações disponíveis, com gráficos que mostram a taxa diária de mortes por Covid-19 a cada 100 mil habitantes (chamada pelos pesquisadores de “velocidade”) e a variação dessa taxa (denominada “aceleração”) desde abril de 2020.

O objetivo é que a plataforma ajude a identificar o que pode enfraquecer ou impulsionar a pandemia, auxiliando na criação de políticas públicas que contenham o avanço da doença no Brasil e no mundo. O código-fonte do modelo de IA será disponibilizado no site da iniciativa nas próximas semanas. A metodologia e os primeiros resultados da pesquisa foram pré-publicados na medRxiv e aguardam revisão por pares.

Galileu