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“Causamos a mais acelerada degradação da natureza desde a extinção dos dinossauros”

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Bernardo Strassburg é especialista em sustentabilidade, pesquisador da PUC-Rio e diretor executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (Foto: Divulgação/Serrapilheira)
Bernardo Strassburg é especialista em sustentabilidade, pesquisador da PUC-Rio e diretor executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (Foto: Divulgação/Serrapilheira)

O cenário atual do meio ambiente é preocupante e devastador. Para o especialista em sustentabilidade Bernardo Strassburg, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e diretor executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade, estamos testemunhando a mais acelerada degradação da natureza e extinção de espécies desde a última extinção em massa. Strassburg é coautor do mais completo relatório das Nações Unidas sobre o estado da natureza e da biodiversidade, publicado em novembro de 2019. “Esse quadro é desastroso tanto para a natureza quanto para a gente, porque a humanidade é completamente dependente do sistema de suporte da biosfera do planeta e das múltiplas contribuições que a natureza provê, desde polinização até um clima que evita deslizamentos, pragas, pandemias.”

Apesar disso, há motivos para otimismo, segundo o próprio Strassburg. Em uma série de estudos publicados na revista Nature em setembro deste ano e dos quais o pesquisador brasileiro participou, cientistas concluíram que é possível não só inverter a curva de degradação como modificá-la para uma de ganho, além de melhorar a condição da natureza. “Nos perguntamos se seria possível sermos a primeira geração humana a deixar uma condição da natureza melhor do que encontramos, e concluímos que, sim, é possível”, diz o especialista.

Usando diferentes modelos que vêm sendo desenvolvidos e refinados há pelo menos duas décadas, que combinaram cenários futurísticos realistas de crescimento populacional e padrão de consumo, o objetivo do estudo foi descobrir o quão ambiciosos os planos de restauração e prevenção podem ser, mas sem tirar o pé do chão. “Sabemos que não adianta só ficar dizendo ‘tem que parar de desmatar tudo, restaurar o planeta inteiro….’, pois a população humana também vai crescer, vamos precisar aumentar a produção agrícola, entre outros”, pontua. “Mas identificamos que não há um conflito entre os planos ambiciosos de conservação e restauração e as metas de produção de alimentos. Partindo disso, exploramos quais mudanças realistas podemos fazer nas nossas economias para reduzir a perda acelerada de natureza e das espécies.”

Em entrevista a GALILEU, Strassburg falou sobre a abordagem inovadora do estudo e que estratégias são essas que podem não só frear a degradação da biodiversidade como também revertê-la.

A abordagem do estudo incluiu modelos diferentes de biodiversidades, ecossistemas e comunidades, pensando em estratégias integradas. Por que isso foi considerado inovador e qual a importância de se estudar todos esses ângulos?

Primeiro, pelo grau de ambição dos cenários que a gente queria explorar. Até hoje, os cenários se preocupavam principalmente com reduzir a perda, o que, claro, é importantíssimo. Mas a gente queria também investigar um cenário em que fosse possível inverter essa curva e ter um ganho de condição da natureza. A segunda inovação foi combinar múltiplos modelos de cenários do mundo com diferentes modelos de biodiversidade. Isso nos permitiu ter várias métricas diferentes para vários aspectos da biodiversidade, porque quando a gente fala só “biodiversidade” às vezes não dá para compreender bem a riqueza, a variedade de coisas que estão contidas nessa palavra. Essa riqueza de modelos permitiu ter uma visão dos diversos aspectos da vida. Eles também ajudam a ter mais segurança dos resultados, pois quando você chega à mesma conclusão usando cinco, seis, sete modelos diferentes, há maior robustez dos resultados.

Como você avalia a situação atual da degradação da biodiversidade?

A gente está promovendo as mais aceleradas degradação da natureza e extinção de espécies desde a última extinção em massa, que foi a dos dinossauros. É um quadro muito assustador, tanto pelo ponto de vista ético quanto das consequências que traz para a própria humanidade. Nos últimos 40 anos, a população total de animais do planeta caiu pela metade por causa da ação humana. Isso por si só é um dado muito sério.

Mas também é muito sério se pensarmos que a humanidade é completamente dependente do sistema de suporte da biosfera do planeta e das múltiplas contribuições que a natureza provê, desde polinização até um clima que evita deslizamentos, pragas, pandemias. Alguns chamam isso de serviços ecossistêmicos, outros chamam de contribuições da natureza para as pessoas. No fundo é a mesma coisa, são os benefícios que a gente usufrui da natureza, e eles estão em declínio. Então esse quadro é desastroso tanto para a natureza quanto para a gente.

Por outro lado, o que a gente mostra no artigo é que é perfeitamente possível mudar esse quadro. E o bom é que aí a gente beneficia não só a natureza, mas também melhora todas as outras crises, até a própria crise climática — 30% de tudo o que a gente precisa fazer para combater as mudanças climáticas são as chamadas soluções baseadas na natureza. A principal delas, que investigamos bastante no artigo, é a restauração das áreas perdidas. E isso tem um potencial gigantesco de sequestrar carbono da atmosfera, de reciclar água dos rios, entre outros. Então, se por um lado o estado e a tendência atuais são extremamente negativos, por outro uma virada é factível.

“30% de tudo o que a gente precisa fazer para combater as mudanças climáticas são as chamadas soluções baseadas na natureza””

Bernardo Strassburg

De que maneira isso pode ser feito?

São cinco principais iniciativas. Uma é melhorar a conservação e a restauração da natureza, ou seja, diminuir ou eliminar o desmatamento. É importante que a gente faça mais e, principalmente, melhor, pois onde você conserva e restaura faz uma diferença enorme para a natureza, além de ser importante para evitar o conflito com a agricultura. O outro bloco diz respeito à produção e consumo. É preciso fazer produção agrícola de forma mais sustentável e mudar o nosso padrão de consumo, torná-lo mais sustentável. Aqui, de novo, vale ressaltar que a gente é realista. Então estimamos um processo gradual de redução de consumo de alimentos que são muito pesados para o meio ambiente, ocupam muito espaço para serem produzidos ou demandam muito recursos naturais. Se houvesse redução de 50% no consumo desses produtos, isso já seria suficiente.

Também é importante reduzir o desperdício. Um terço de tudo o que é produzido é jogado fora. Parte disso é desperdiçado ainda nas fazendas e no transporte, parte no processamento, parte nos supermercados e, finalmente, na nossa geladeira mesmo. Uma redução, e de novo não é eliminação, de 50% no desperdício ao longo das próximas décadas, já seria o suficiente para chegar a esse cenário de inverter a curva.

E a última iniciativa é um comércio internacional mais sustentável, com as coisas sendo produzidas com menor impacto e sem barreiras tarifárias para trocas e negociações.

O Pantanal está em chamas, a Costa Oeste norte-americana passou por uma das piores temporadas de queimada da história e, mesmo assim, vemos líderes fazendo pouco ou quase nada para inverter o cenário. Que motivos temos para ser otimistas?

Acho que um dos motivos é que, até a conclusão do estudo, nós mesmos não sabíamos que seria possível um quadro de reversão e de melhoria dessas situações. Há otimismo só por existir essa possibilidade. Não há conflito entre “ou a gente conserva ou a gente produz”, ele não tem base na ciência, a gente tem capacidade tanto de produzir, quanto de conservar e restaurar.

Outra coisa que me deixa otimista é ver que o comportamento dos consumidores vem mudando. Não na velocidade que precisa mudar, mas muita coisa na história humana é meio bola de neve. Começa devagar e, depois que pega, vai mais rápido. E acho que hoje o próprio agronegócio já vive esse conflito interno entre grupos que são minoria, mas têm um poder político desproporcional e apostam num modelo do século passado de expansão horizontal da agricultura, e lideranças muito importantes que vêm explicando que o agronegócio brasileiro não precisa de desmatamento. Na verdade, isso é contraprodutivo para o mercado brasileiro e para o próprio agronegócio. E essa é uma direção que o mundo quer ir. Se o Brasil insistir em ir na contramão, vamos perder cada vez mais mercado. Acho que o Brasil tem como ocupar uma posição de liderança. Estaria menos otimista se os incentivos econômicos não estivessem apontando nessa direção, então acho que é mais questão de tempo.

Enquanto isso, por não sentirem os efeitos de forma tão contundente ou pela distância física das tragédias, uma parcela grande da sociedade ainda ignora o senso de urgência do tema. Como trazer a questão para mais perto?

Foi de fato uma falha da comunidade científica e de políticas públicas internacionais
ficar sempre falando num horizonte temporal de 2100. É sempre 2100, e isso levou a esse sentimento de “ah, isso é pros meus bisnetos”. Mas isso tem mudado muito rápido, as pessoas estão entendendo cada vez mais. E este ano a gente tem um acontecimento que também está literalmente parando o mundo e fazendo as pessoas repensarem, pois já é sabido que as pandemias têm relação com o nível de degradação da natureza. Desde a exploração direta, com a caça de animais, como o próprio desmatamento que permite uma proximidade maior das pessoas com áreas antes intocadas. A gente está vivendo uma tragédia de proporções históricas que é ligada também a um nível de degradação da natureza.

“Não há conflito entre ‘ou a gente conserva ou a gente produz’, ele não tem base na ciência””

Bernardo Strassburg

Quais as expectativas da comunidade científica para as negociações na Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica em 2021?

A transferência de ano causada pela Covid-19 gerou um pouco de frustração e até algum inconveniente, porque teoricamente o acordo cobre a década, e a década começa em janeiro. Então vamos ter um buraco pela primeira vez. Espera-se acordar, se tudo ocorrer mais ou menos bem, em outubro do ano que vem. Mas, ao mesmo tempo, esse adiamento permitiu um trabalho melhor de preparação para o acordo.

Outro elemento talvez mais importante é que agora tanto a convenção de biodiversidade quanto a do clima, que também teve que adiar seu encontro para 2021, estão olhando com muita atenção para esse momento pós-pandemia, porque ele apresenta uma possibilidade de retomada econômica que vá de encontro ao chamado Green New Deal. É pensar em aproveitar esse momento, já que terá que se investir muito recurso público num processo de recuperação da economia, para ir em uma direção nova, mais verde, mais sustentável, em vez de dar incentivo para fazer fábrica de carvão. Então esse adiamento vai propiciar que se explore melhor o papel de uma recuperação verde.

Na sua visão e levando em consideração o estudo, qual o melhor e o pior cenário para o futuro da humanidade?

O melhor é aproveitar esse momento de reinvestimentos na economia para fazer tudo de uma forma mais sustentável, e aí a gente chega a 2030 com um cenário no qual pelo menos já estabilizamos a perda de natureza no mundo, restaurou ecologicamente e começou a diminuir aceleradamente as emissões de gases do efeito estufa. Tudo isso naturalmente cheio de cobenefícios: cidades mais limpas, menos poluição, ar com melhor qualidade, menos doenças, aumento da expectativa humana.

O pior cenário é dobrar a aposta e seguir em um caminho insustentável, construindo mais usinas de carvão, apostando mais em combustíveis fósseis, acelerando o desmatamento. Aí, o que a gente já vê hoje acontecendo, como as queimadas e temperaturas elevadas, no meio da década vai passar a fazer parte da rotina diária das pessoas. Um mundo mais poluído, com mais doenças, mais quente, uma natureza perdendo a capacidade de resiliência, colapsos de ecossistemas, que por sua vez levam a colapsos de agricultura, que por sua vez levam a conflitos por alimentos. É um cenário muito realista, mas que espero que fique na categoria pessimista e não seja o caminho que escolhemos trilhar.

Galileu