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Como é o trabalho do brasileiro Ivair Gontijo na missão da Nasa a Marte

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Brasileiro é um dos responsáveis pelos testes com o robô Perseverance, que aterrissou no Planeta Vermelho em fevereiro (Foto: Arquivo pessoal)
Brasileiro é um dos responsáveis pelos testes com o robô Perseverance, que aterrissou no Planeta Vermelho em fevereiro (Foto: Arquivo pessoal)

São quase 2 horas da madrugada de quinta-feira, 11 de março. O calendário de Ivair Gontijo, cientista brasileiro que integra a equipe responsável pela mais recente – e ambiciosa – missão da Nasa a Marte, avisa: é a sua vez de assumir o plantão no fuso horário do Planeta Vermelho. Desde fevereiro de 2021, quando a sonda Perseverance pousou por lá com o objetivo de encontrar rastros de vida antiga no planeta, é no fim da tarde marciana que o robô levanta as antenas a fim de enviar informações à agência espacial norte-americana. O período, para o desconforto dos terráqueos, corresponde às noites (ou ao início do amanhecer) daqui.

Para que nenhum dado escape à visão dos humanos, cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, na sigla em inglês) precisaram virar sua rotina de cabeça para baixo. Gontijo é um deles: em três ou quatro dias da semana, o engenheiro toma café às 2h, almoça por volta das 6h30 e, de frente para o computador, assume turnos de trabalho que se estendem por 10 horas ou mais. Como se não bastasse, a cada plantão o início de seu expediente fica cerca de 40 minutos atrasado — o culpado é Marte: cada dia no planeta é 39 minutos e 35 segundos mais longo que os daqui.

Quando não participa dos plantões noturnos, o cientista está respondendo a e-mails sobre a missão e participando de reuniões virtuais. De vez em quando, aos fins de semana, até sobra tempo livre. “Dá para ter uma vida razoavelmente normal”, considera. Mas os hábitos diários dos quais o engenheiro não abre mão são outros: caminhar e ler. Uma estante cheia de livros, além de um brasão da Nasa, é o que chama atenção no cenário em que o mineiro conversou, virtualmente, com a reportagem, em sua casa em Los Angeles. Ele vive na cidade norte-americana com a esposa e Cisso, seu gato siamês que “adora roubar a cena”, segundo Gontijo.

Ivair Gontijo é um dos responsáveis pelos testes com o robô Perseverance, que aterrissou no Planeta Vermelho em fevereiro (Foto: Revista Galileu)
Ivair Gontijo é um dos responsáveis pelos testes com o robô Perseverance, que aterrissou no Planeta Vermelho em fevereiro (Foto: Revista Galileu)

Nascido na pequena cidade de Moema, no interior de Minas Gerais, Gontijo é formado em Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde também concluiu um mestrado. Fez doutorado em Engenharia Elétrica na Universidade de Glasgow, na Escócia. Ao se formar doutor, no início dos anos 1990, até tentou ficar em solo brasileiro, especificamente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista, mas foi impedido de tirar a ideia do papel pelo impeachment do então presidente Fernando Collor, processo que adiou decisões relacionadas a investimentos e novas vagas para pós-docs no país.

Em 2018, o cientista publicou o livro “A Caminho de Marte” (Editora Sextante), vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2019 na categoria ciências. Na obra autoral, explica como “um mineirinho saiu do interior de Minas Gerais e chegou à Nasa”. E, a GALILEU, ele contou em detalhes sua rotina por trás da maior missão da história ao Planeta Vermelho. Veja a seguir.

No fuso de Marte

Pelo menos quatro senhas são necessárias para que, à distância, Ivair Gontijo tenha seu acesso liberado ao sistema do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. Em regime home-office desde março de 2020 por conta da pandemia de Covid-19, quando liga o computador, o mineiro ganha nova identidade: torna-se PCD (Payload Downlink Coordinator lead), sigla em inglês que significa “líder dos coordenadores de dados” sobre a missão Perseverance em Marte. Trocar nomes de batismo por funções, explica ele, é uma estratégia adotada pela equipe para agilizar a comunicação ao longo do dia. 

Entre os veículos de imprensa, no entanto, o apelido que acompanha o cientista é outro: “o brasileiro da Supercam”. Responsável pela captura das primeiras imagens e sons em alta definição de Marte divulgados pela Nasa nas últimas semanas, a Supercam é um dos instrumentos que foram de carona com o rover Perseverance ao Planeta Vermelho. Também cabe a ela identificar a composição química das rochas e solos marcianos. Ao longo de sua construção, resultado de uma parceria entre projetistas da França, Espanha e dos Estados Unidos, foi Gontijo quem representou o time internacional frente às discussões com a agência espacial norte-americana.

Agora, cabe ao mineiro a tarefa de produzir relatórios sobre o desempenho não só da supercâmera, mas dos outros equipamentos que chegaram em solo marciano no dia 18 de fevereiro de 2021, como o par que carrega uma referência aos personagens da famosa saga britânica de Sir Arthur Conan Doyle: Sherloc (sem o ‘k’) e Watson que, juntos, vão coletar dados sobre minerais e moléculas orgânicas de Marte.

Nos dias em que assume o cargo de plantonista sob o fuso horário marciano, Gontijo monitora os times do JPL que estão testando cada um dos instrumentos enviados a Marte. (Foto: Arquivo pessoal)
Entre os veículos de imprensa, Gontijo é conhecido como “o brasileiro da Supercam”. (Foto: Arquivo pessoal)

A performance desses equipamentos só está sendo medida agora porque, embora todas as partes do Perseverance tenham passado por simulações individuais em solo terrestre, seu sistema não pôde, de fato, ser testado por aqui. Uma série de diferenças entre as condições ambientais da Terra e Marte impediram o feito: enquanto a sonda pesa cerca de 340 quilos na superfície marciana, por exemplo, a gravidade do Planeta Azul faz com que o peso do robô suba para quase 1 tonelada.

Não à toa, “7 minutos de terror” é como os cientistas descrevem o intervalo em que o veículo vai de uma velocidade de 19.500 km/h no topo da atmosfera marciana para cerca de 3 km/h no momento do pouso. De excelente a desastroso, o desfecho da aterrissagem era uma incógnita coletiva. “Nem nós tínhamos visto tudo aquilo funcionando aqui na Terra”, conta o engenheiro.

O brasileiro vive em Los Angeles com a esposa e Cisso, seu gato siamês que
O brasileiro vive em Los Angeles com a esposa e Cisso, seu gato siamês que “adora roubar a cena”, segundo Gontijo. (Foto: Arquivo pessoal)

Nos dias em que assume o cargo de plantonista sob o fuso horário marciano, Gontijo monitora os times do JPL que estão testando cada um dos instrumentos enviados a Marte. Funciona assim: a cada dia, o robô é programado para realizar uma série de atividades, como tirar fotos de seu “braço mecânico”. O objetivo desses testes é oferecer aos cientistas uma visão sobre o estado atual dos aparatos para que, nos próximos meses, o grupo possa dar início aos comandos de busca por material orgânico marciano.

Depois, os dados gerados pelo robô chegam à Nasa por meio da rede de antenas internacionais da agência espacial norte-americana, a Deep Space Network (DSN) – que se encontra distribuída em três pontos: no Deserto de Mojave, nos EUA; perto de Madrid, na Espanha; e em Camberra, na Austrália. A partir daí é que, com um headphone nos ouvidos e, às vezes, um terceiro fone adicional — tamanho o número de reuniões que eventualmente acontecem ao mesmo tempo —, Gontijo entra em contato com cada equipe por trás dos testes para organizar um relatório diário de resultados. O compilado de informações, por sua vez, é enviado a um terceiro setor. Este, já com os pés no amanhã, prepara a lista de comandos a serem cumpridos pelo Perseverance no dia (leia-se: noite terrestre) seguinte.

Quando o rover Perseverance foi lançado ao espaço, no dia 30 de julho do ano passado, foi como um peso tirado das costas dos cientistas do JPL. (Foto: Arquivo pessoal)
Quando o rover Perseverance foi lançado ao espaço, no dia 30 de julho do ano passado, foi como um peso tirado das costas dos cientistas do JPL. (Foto: Arquivo pessoal)

Embora exaustiva, a atual fase da missão em que se encontra o brasileiro não supera, segundo ele, a pressão trazida pela etapa anterior. Isto é: quando os cientistas não tinham outra alternativa senão terminar a construção do robô até, no máximo, julho de 2020. Caso contrário, teriam de esperar mais 26 meses para enviar a obra-prima ao Planeta Vermelho, num período em que a distância entre a Terra e Marte voltasse a ser relativamente curta – economizando, assim, gastos em combustível. Como resume o brasileiro, a prova de que “a mecânica celeste não espera por ninguém”.

Quando o rover foi lançado ao espaço, no dia 30 de julho do ano passado, foi como um peso tirado das costas do JPL. Mas a insegurança não parou por aí: antes que o Perseverance aterrisasse em solo marciano, os cientistas ainda precisavam terminar o software que receberia os dados enviados pelo veículo, além de treinar toda a equipe para o trabalho que, junto a outras centenas de pesquisadores, Gontijo desenvolve hoje.

O alívio bateria à porta de novo só no dia 18 de fevereiro de 2021, data que marcou o pouso bem-sucedido do robô, após sete meses de viagem. “Estou sem palavras”, o engenheiro lembra de ter escutado uma de suas colegas de trabalho dizer via radiofone à época. Agora, com todos os instrumentos funcionando, Gontijo consegue vislumbrar um “prêmio” por trás do trabalho árduo. “Temos turnos longos no meio da noite, mas é muito mais recompensador porque, finalmente, estamos recebendo dados de Marte”.

*Com supervisão de Luiza Monteiro

Galileu