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Dentes revelam identidade de vítima de canibalismo morta há 800 mil anos

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Indivíduo H3 era uma menina que tinha entre 9 e 11 anos (Foto: Cenieh)
Indivíduo H3 era uma menina que tinha entre 9 e 11 anos (Foto: Cenieh)

Cientistas do Centro Nacional de Investigación de la Evolución Humana (Cenieh) descobriram a idade e o sexo de um indivíduo encontrado nas montanhas de Atapuerca, no norte da Espanha, que viveu há cerca de 800 mil anos. Os restos mortais de quem antes era identificado como H3 pelos pesquisadores permitiram identificá-lo como uma menina de 9 a 11 anos de idade, provavelmente morta por um grupo rival em um ato de canibalismo.

Publicado em março no Journal of Anthropological Sciences, o estudo comparou dentes da menina com os de outro indivíduo, chamado de H1. Foram constatadas diferenças dentárias comparáveis àquelas observadas entre homens e mulheres modernos, o que levou os especialistas a sugerir que H1 era um indivíduo masculino, enquanto o fóssil H3 era uma pessoa do sexo feminino. Ambos pertenceram à espécie Homo antecessor, possivelmente o último ancestral comum entre Neandertais e humanos modernos.

Até agora, não havia sido possível identificar o dimorfismo sexual na população do sítio arqueológico de Gran Dolina porque a maioria dos indivíduos lá encontrados não tinham sequer alcançado a adolescência; ou seja, eram fisicamente imaturos. “Só tínhamos conhecimento sobre o sexo de um fragmento de dente, do qual proteínas de esmalte foram obtidas”, diz José María Bermúdez de Castro, coordenador do programa de paleobiologia do Cenieh e codiretor dos sítios de Atapuerca. “Mas esse estudo oferece um jeito novo e altamente confiável de estimar o sexo por meio de um método não-destrutivo”, comenta, em comunicado.

Além do esmalte, foram medidas as proporções de dentina presentes nas peças dentárias desenterradas. Segundo o Cenieh, metodologias que examinam caninos permanentes permitem distinguir sexos já a partir dos seis anos de idade. Isso porque esse é o tipo de dente que apresenta o mais alto grau de dimorfismo sexual na dentição humana mesmo em idade precoce, a partir de quando são formados.

Restos de dentes analisados na pesquisa (Foto: Cenieh)
Restos de dentes analisados na pesquisa (Foto: Cenieh)

Eficácia do canibalismo

Os restos ósseos extraídos do sítio de Gran Dolina contêm marcas de dentes e apresentam sinais de extração de medula, considerada uma evidência de quando um indivíduo é cortado e comido por um outro grupo.

Atos de canibalismo eram vistos como uma vantajosa estratégia de alimentação no início do Paleolítico. O retorno de nutrientes e a energia gasta na caça de presas não valiam tanto a pena quanto o ataque a um povo rival. “Nossas análises mostram que, como qualquer predador, o Homo antecessor selecionou suas presas de acordo com o custo-benefício. Considerando esse equilíbrio, humanos estavam na escala de presa de ‘alto nível’”, explica o cientista do Cenieh Jesús Rodríguez. “Isso significa que, comparados a outras presas, corpos humanos poderiam significar uma parte da alimentação obtida a baixo custo”, disse em nota publicada em 2019.

Galileu