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Dimas Covas: Ações de Bolsonaro atrasaram compra de vacinas e entrega de insumos

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O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse nesta quinta-feira à CPI da Covid que o Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a iniciar a vacinação. Segundo ele, 60 milhões de doses de vacina poderiam ter sido entregues ainda em 2020, caso o governo federal tivesse dado à Coronavac o mesmo tratamento dispensado à vacina da AstraZeneca/Oxford.

Apesar de alguma demora para responder à primeira proposta do Butantan, feita em julho do ano passado, o Ministério da Saúde vinha negociando a aquisição das vacinas até o presidente Jair Bolsonaro vir a público, em outubro, informar que o negócio seria desfeito. A partir daí, disse Covas, as tratativas foram suspensas e o contrato só foi finalmente assinado em janeiro deste ano.

“As conversações não prosseguiram porque houve manifestação contrária do presidente”, afirmou o diretor do Butantan.

Além de ter atrasado significativamente o início da vacinação, Bolsonaro continuou, segundo o diretor do Butantan, atrapalhando o processo, com os reiterados ataques direcionados à China, principal fornecedora de insumos para a produção de vacinas. “Cada declaração no Brasil se reflete nas dificuldades burocráticas (para vacina)”, disse Covas.

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No depoimento, ele revelou ter participado de uma reunião com ministros do governo e o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. No encontro, realizado em Brasília, o diplomata teria explicitado o “inconformismo” dos asiáticos com a postura do presidente brasileiro.

Questionado pelos senadores, Covas disse que, a seu ver, os ataques do presidente tiveram efeito direto sobre os atrasos nos envios de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para as vacinas. “Se você tem 100 vizinhos, todos cordiais, e apenas um deles fica te atacando, é natural que você privilegie os demais quando convidá-los para uma festa”, ilustrou.

Para o dirigente, essa tese pode ser comprovada se observado o gradativo distensionamento das relações diplomáticas entre os dois países, materializado com as recentes demissões de Ernesto Araújo do comando do Itamaraty e de Eduardo Pazuello da Saúde.

Covas afirmou que os substitutos dos dois, respectivamente Carlos França e Marcelo Queiroga, adotaram uma postura muito mais produtiva para com os chineses e que a liberação de duas importantes cargas de IFA, nesta semana, atesta os resultados práticos dessa reaproximação.

O diretor do Butantan deu a entender que o Ministério da Saúde só retomou o interesse pela Coronavac após falharem tentativas de trazer vacinas de outros países, como a Índia. O resultado da demora foi um atraso substantivo na entrega das 100 milhões de doses contratadas, que poderiam ter sido totalmente entregues até maio.

Até agora, o Butantan entregou as 46 milhões de doses referentes ao primeiro contrato de fornecimento. O restante estava previsto para chegar até o fim de setembro, mas o cronograma pode ser atrasado por conta dos problemas recentes com o IFA.

Os senadores de oposição classificaram o depoimento como “demolidor” para o governo, ainda mais grave do que os relatos feitos há duas semanas pelo gerente-geral da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo.

O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou que, se consideradas as doses perdidas da Pfizer e da Coronavac, o país poderia ter aplicado 50 milhões de doses a mais até junho deste ano. “Imaginem quantas vidas poderiam ter sido salvas”, afirmou ele.

Os governistas, por sua vez, apresentaram dados sobre repasses federais ao Butantan nos últimos anos para tentar arrancar de Covas uma declaração de que Bolsonaro sempre foi um parceiro do instituto. O dirigente afirmou que o Butantan não recebeu “um centavo” do Ministério da Saúde para o desenvolvimento das vacinas, apenas o pagamento pelas doses entregues.

Covas disse ainda que uma vacinação maior poderia atenuar os inevitáveis efeitos da terceira onda da pandemia. “A vacina não vai abortar a terceira onda”, afirmou o diretor do Butantan, ao lembrar que medidas como isolamento social e uso de máscara ainda serão muito importantes.

Ele acredita que a covid-19 vai mesmo demandar doses de reforço na vacinação, provavelmente em periodicidade anual. Por conta disso, o instituto continua apostando na Butanvac, imunizante 100% nacional que pode começar a ser entregue no último trimestre deste ano.

1 de 1 — Foto: Jefferson Rudy/Jefferson Rudy/Agência Senado

— Foto: Jefferson Rudy/Jefferson Rudy/Agência Senado

Fonte: Valor Econômico