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Documentário “Como Ela Faz?” discute desigualdade de gênero no trabalho

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A astrofísica Duilia de Mello é uma das 12 mulheres retratadas no documentário Como Ela Faz? (Foto: Reprodução)
A astrofísica Duilia de Mello é uma das 12 mulheres retratadas no documentário Como Ela Faz? (Foto: Reprodução)

A lista é longa: ir ao trabalho, fazer as tarefas domésticas, cuidar dos filhos… E, ao final do mês, apesar de desempenhar o mesmo ofício de um homem, ainda receber um salário menor. Incorporados à rotina das mulheres mundo afora, esses desafios são o fio condutor do documentário brasileiro Como Ela Faz?, que estreia nesta quinta-feira (4) no Cine Petra Belas Artes, em São Paulo, e que será exibido na próxima segunda-feira (8) no canal pago GNT.

A partir de imagens e testemunhos pessoais, a produção explora um dia na vida de 12 mulheres que ocupam os mais diversos cargos no país: de jogadora profissional de futebol a diarista. Premiada na edição 2020 do Hollywood Womens’s Film Festival, a obra dirigida por Tatiana Villela é um recorte de um quadro muito maior, pendurado na história do Brasil há décadas: a desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

“O filme mostra a realidade das mulheres trabalhadoras do país e, ao mesmo tempo, pode inspirar meninas a seguirem seus sonhos, fazer tudo que elas quiserem”, comenta a cientista Duilia de Mello, colunista da GALILEU e uma das personagens do documentário.

A astrofísica e pesquisadora colaboradora da Nasa foi acompanhada pela equipe de produção em uma de suas idas costumeiras à ONG Redes da Maré, no Rio de Janeiro. Ali, ela promove rodas de conversa com crianças para discutir seu assunto favorito: o Universo. “Meu objetivo é inspirá-las, especialmente as meninas, a seguirem carreiras científicas ou pelo menos considerar a ciência como uma possibilidade profissional”, relata.

Desde que ingressou no curso de astronomia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em meados da década de 1980, a cientista viu a participação de mulheres na ciência crescer ao longo dos anos, mas considera que algumas áreas – como a física e a própria astronomia – ainda são desproporcionalmente masculinas.

Segundo o relatório A jornada do pesquisador através das lentes de gênero, divulgado pela Elsevier em 2020, bioquímica e odontologia são algumas das áreas da ciência em que as mulheres brasileiras já são maioria, representando 52,7% e 52,4 dos profissionais, respectivamente. 

Para a colunista da GALILEU, sem o olhar feminino, qualquer área científica fica mais pobre, uma vez que passa longe de atingir um de seus principais objetivos: a resolução dos mais diversos problemas. “Um cientista é alguém que, ao identificar problemas que a humanidade enfrenta, tenta encontrar soluções para isso, e há problemas que afetam mais as mulheres. A visão delas é essencial para a ciência”, defende Mello.

Diferenças raciais

O documentário Como Ela Faz? também mostra os bastidores de Adriana Barbosa (empreendedora), Carla Dias (diarista), Cida Silva (agricultora), Cristiane Rozeira (futebolista), Cristina Palmaka (presidente da SAP Brasil), Djamila Ribeiro (filósofa), Gina Vieira (professora), Gabriela Lima (professora), Jéssica Dias (estudante de enfermagem), Kamila Rocha (enfermeira obstétrica), Maitê Schneider (fundadora da Transempregos), Nina Silva (CEO do Movimento Black Money) e Tabata Amaral (deputada federal). 

Além da diversidade de profissões, a obra explora as diferenças raciais na rotina de trabalho feminino. Não sem motivo: mulheres pretas têm que se dedicar mais aos cuidados da casa e dos filhos do que as brancas. Com menos tempo disponível, esse grupo também vê reduzidas suas chances de ascender profissionalmente.

Os números não mentem. O estudo Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, divulgado nesta quinta-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que, em 2019, 94,1% das mulheres que se declararam pretas e 92,3% das pardas afirmaram realizar afazeres domésticos. Entre as brancas, o número foi de 91,5%.

Das 12 histórias – e profissões – que protagonizam o documentário, não faltam retratos dessas disparidades. “Pela diversidade racial e de profissões, o filme é revolucionário”, diz Mello. Confira o trailer a seguir:

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*Com supervisão de Luiza Monteiro

Galileu