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Em SP, poucas cidades têm capacidade de adaptação às mudanças climáticas

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Isolamento de 50% em São Paulo reduziria casos de Covid-19 e metade das mortes (Foto: Renan/Unsplash)
Em SP, poucas cidades têm capacidade de adaptação às mudanças climáticas (Foto: Renan/Unsplash)

A maioria das cidades paulistas apresenta baixo potencial de adaptação às mudanças climáticas em termos de habilidade de articular políticas públicas que podem facilitar a adequação de seus sistemas de habitação e transporte, por exemplo, aos impactos das alterações do clima.

A constatação foi feita por meio de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com colegas das universidades Estadual de Campinas (Unicamp), Federal de Itajubá (Unifei) e de Michigan (Estados Unidos).

Os resultados do trabalho, realizado por pesquisadores vinculados ao Projeto CiAdapta, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e que conta com a participação de cientistas ligados ao Projeto Glocull, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Climatic Change e apresentados durante o 9º Diálogo Brasil-Alemanha sobre Ciência, Pesquisa e Inovação, “Cities and Climate – The Multi-level Governance Challenge”. O evento, promovido pela FAPESP em parceria com o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo, foi realizado entre os dias 17 e 20 de maio, de forma online.

“Constatamos que a maioria dos municípios paulistas ainda têm muita dificuldade em alinhar políticas públicas que podem estar conectadas à adaptação às mudanças climáticas”, disse Gabriela Marques Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e uma das autoras do estudo.

A fim de ajudar as cidades a avaliar suas capacidades de lidar com os impactos das mudanças climáticas por meio da implementação de políticas que alinham sustentabilidade à adaptação, em curto e longo prazo, os pesquisadores desenvolveram o Índice de Adaptação Urbana (UAI) O índice avalia a presença ou ausência nos municípios de políticas públicas e estruturas legais e regulatórias de apoio a intervenções urbanas ligadas à adaptação climática nas áreas de habitação, mobilidade urbana, agricultura sustentável, gestão ambiental e respostas aos impactos climáticos.

“Os indicadores do índice podem ser atualizados a partir de dados públicos, como os fornecidos pelo Censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Dessa forma, o UAI não somente pode ser facilmente acessível como também atualizado dinamicamente para refletir mudanças que ocorrem nas cidades”, explicou Di Giulio.

Os pesquisadores aplicaram o índice para avaliar os 645 municípios do estado de São Paulo. Os resultados indicaram que mais da metade dos municípios apresentaram classificações baixas nas cinco dimensões avaliadas.

Os municípios localizados nas regiões metropolitanas, onde vive a maior parte da população do estado, obtiveram classificações mais elevadas. “O índice pode ajudar tanto a fortalecer a capacidade adaptativa dos municípios como a provocar um debate mais qualificado sobre adaptação das cidades brasileiras às mudanças climáticas”, avaliou Di Giulio.

Papel das cidades

As cidades devem estabelecer estratégias para redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) a fim de atingirem a neutralidade climática e contribuírem para os esforços globais de combate às mudanças climáticas, avaliou Sabine Schlacke, professora da Universidade de Munique, da Alemanha. “As cidades não foram vinculadas diretamente às metas do Acordo de Paris, por exemplo. No entanto, podem se envolver diretamente no desenvolvimento das contribuições nacionalmente determinadas que foram apresentadas pelos países-membros do tratado”, afirmou Schlacke.

Ainda são poucas as cidades no mundo que estão conseguindo atingir as metas de emissões de GEE a fim de contribuir para limitar o aumento da temperatura média global abaixo de 2 ºC e perseguir a meta de mantê-la em 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, como estabelecido no Acordo de Paris. Uma delas é São Paulo, apontou Cathrin Zengerling, professora da Albert-Ludwigs-Universität Freiburg. “Uma das razões de São Paulo se destacar nessa seara é porque a cidade usa muita energia limpa”, afirmou a pesquisadora.

Já as cidades de Denver, Chicago e Los Angeles, nos Estados Unidos, e Xangai e Pequim, na China, estão na liderança das emissões de carbono no mundo, comparou Zengerling. A íntegra das discussões no evento pode ser conferida em https://fapesp.br/eventos/dwhi9.

Galileu