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Entenda o que levou os EUA a recomendarem a suspensão da vacina da Johnson & Johnson

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1 de 1 — Foto: Cheryl Gerber/Johnson & Johnson via AP

— Foto: Cheryl Gerber/Johnson & Johnson via AP

Em um novo golpe para a campanha global de imunização contra a covid-19, as autoridades de saúde dos Estados Unidos recomendaram nesta terça-feira que a suspensão temporária do uso da vacina desenvolvida pela Johnson & Johnson (J&J) no país. A decisão foi tomada após relatos de casos raros de formação de coágulos sanguíneos em pessoas vacinadas, um problema que já havia ocorrido com o imunizante desenvolvido pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford. Entenda o caso:

O que disseram as autoridades de saúde dos EUA?

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos nos EUA, divulgaram um comunicado nesta terça-feira recomendando a interrupção do uso da vacina da J&J após registrarem seis casos de formação rara de coágulos sanguíneos em pessoas vacinadas. Todas as pessoas que apresentaram a reação adversa eram mulheres, com idades entre 18 e 48 anos. Os sintomas apareceram entre 6 e 13 dias após o uso da vacina da J&J, aplicada em regime de dose única.

A suspensão foi recomendada por “extrema cautela”. O CDC informou que o Comitê Consultivo em Práticas de Vacinação se reunirá amanhã para discutir os casos. Uma investigação paralela sobre os efeitos colaterais será realizada pela FDA.

“Até que esse processo seja concluído, recomendamos esta pausa. Isso é importante para garantir que a comunidade de profissionais de saúde esteja ciente do potencial desses eventos adversos e possa se planejar, devido ao tratamento exclusivo para esse tipo de coágulo sanguíneo”, afirmaram a FDA e o CDC em comunicado.

Qual foi a reação adversa detectada nos EUA?

Os seis casos registrados nos EUA foram de trombose do seio venoso cerebral e ocorreram em combinação com os baixos níveis de plaquetas sanguíneos. Esse tipo de problema de saúde ocorre quando um coágulo de sangue se forma nas veias do cérebro, impedindo que o sangue circule como deveria. Dessa forma, pode haver hemorragia e há risco de morte.

Normalmente, o tratamento para desbloquear as veias após a detecção de um coágulo é feito com a heparina, um anticoagulante. No entanto, a FDA afirma que o uso da substância pode ser perigoso no caso de trombose do seio venoso cerebral. A recomendação, portanto, é que outras formas de tratamento sejam adotadas.

Qual a relação desses casos com as vacinas da J&J e da AstraZeneca?

Os casos raros de formação de coágulos sanguíneos após o uso da vacina da Johnson & Johnson são similares aos detectados depois da aplicação do imunizante desenvolvido pela AstraZeneca e a Universidade de Oxford. Os dois produtos usam uma tecnologia similar para prevenir uma infecção pela covid-19: um vetor do vírus que carrega o material genético da doença para estimular a produção de anticorpos na pessoa vacinada.

Na semana passada, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) informou ter descoberto uma ligação entre a vacina da AstraZeneca e os casos de trombose do seio venoso registrados em pessoas que receberam uma dose do imunizante na região. Uma revisão similar foi aberta dias depois para analisar se há vínculos entre o imunizante da J&J e a reação adversa.

Apesar da descoberta, a EMA afirmou que os benefícios de se utilizar a vacina continuam superando os riscos e recomendou que o imunizante da AstraZeneca continuasse sendo aplicado em toda a região. No entanto, vários governos europeus restringiram o uso do produto em pessoas mais jovens. Decisões similares foram tomadas por Austrália e Canadá.

Qual impacto da recomendação para a vacinação nos EUA?

Depois do anúncio, o chefe da força-tarefa contra a covid-19 da Casa Branca, Jeff Zients, afirmou que a suspensão do uso da vacina da J&J em centros federais de vacinação não terá um “impacto significativo” na campanha de imunização dos EUA. Segundo ele, o imunizante, o último aprovado pelo país, representa menos de 5% das doses aplicadas até o momento.

Zients disse que o governo americano disponibilizará mais 28 de milhões de doses das vacinas desenvolvidas por Pfizer/BioNTech e Moderna nesta semana. Ele explicou que esta quantidade é “mais do que suficiente” para manter o ritmo atual de vacinação, de 3 milhões de doses aplicadas por dia.

O coordenador da força-tarefa da Casa Branca também disse que está entrando em contato com os Estados para que pessoas que estavam agendadas para receber uma vacina da J&J recebam agora doses da Pfizer ou da Moderna.

Como a recomendação dos EUA afeta outros países?

O anúncio feito pelas autoridades de saúde dos EUA já teve impacto na Europa, que recebeu ontem o primeiro lote da vacina da J&J e esperava começar a aplicar as doses amanhã. Com a recomendação americana, a própria empresa informou que atrasará as entregas previstas para a União Europeia (UE) e que trabalhará com a EMA para analisar os casos de coágulos sanguíneos.

O atraso deve ter grande impacto na campanha de vacinação do bloco, que já está atrasada em relação aos EUA e outros países. A UE calculava receber 55 milhões de doses da vacina da J&J no segundo trimestre. Ainda não se sabe como esse número será afetado com a decisão da empresa de adiar as entregas.

Antes do anúncio americano, as autoridades de saúde da Austrália já haviam desistido de comprar a vacina da J&J por causa da possível reação adversa. O país fez uma grande aposta no imunizante da AstraZeneca e está revendo sua campanha de vacinação após a recomendação para limitar o uso do produto em pessoas mais jovens.

Fonte: Valor Econômico