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“Estamos cada vez mais esgotados e nos culpamos se não fazemos nada”

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Olga Mecking: “Estamos cada vez mais esgotados e nos culpamos se não fazemos nada” (Foto: Alex Green/Pexels)
Olga Mecking: “Estamos cada vez mais esgotados e nos culpamos se não fazemos nada” (Foto: Alex Green/Pexels)

A polonesa Olga Mecking tem uma missão: convencer as pessoas de que elas precisam fazer nada. Ene-a-de-a. Nadinha. Necas de pitibiribas. Ou, para usar um linguajar mais descolado e exótico, niksen. A palavra em holandês, que significa “fazer algo sem utilidade e aproveitar o ócio”, é título do novo livro da autora, lançado no Brasil em fevereiro pela Editora Rocco.

Em Niksen — Abraçando a arte holandesa de não fazer nada, Mecking reúne o que aprendeu nos últimos anos sobre a “técnica”, da qual virou uma espécie de porta-voz após escrever uma série de artigos sobre o tema para veículos como New York Times, Washington Post e The Guardian. “Estar ocupado não é algo ruim por si só, mas acho que avançamos tanto para uma espécie de glorificação do estar ocupado, que esquecemos de diminuir um pouco o ritmo”, diz a escritora. “Sentimos que cada hora da vida deve ser gasta de maneira eficiente, caso contrário estaremos apenas perdendo tempo.”

Por mais engajada que seja na defesa do fazer nada, a própria autora não tem a pretensão em se tornar alguma espécie de guru no assunto — aliás, ela reconhece no livro que está longe de dominá-la. Às vezes, a sobrecarga da rotina é tamanha que fazer nada se torna uma missão quase impossível. E esse não é o objetivo do niksen.

Ao contrário de outras modas ou tendências de bem-estar, que na visão de Mecking têm nos tornado escravos de ideais inalcançáveis e só servem para acrescentar mais tarefas às nossas já extensas listas de afazeres, a ideia por trás do conceito holandês é tornar o ócio uma prática novamente aceitável — e desejável. “É sempre dito que você deve se dedicar mais ao trabalho, aos filhos, à cozinha, às compras… Isso é exaustivo. Talvez seja bom não fazer nada e deixar de buscar melhorar a si mesmo a cada segundo”, propõe. A seguir, ela fala mais sobre o que torna o niksen tão especial e por que devemos nos dedicar à arte de não fazer nada.

Afinal, o que é niksen? E qual seria a diferença para outros tipos de “não fazer nada”, com o dolce far niente dos italianos e la siesta dos espanhóis?

A definição que eu uso é dividida em duas partes. A primeira é “não fazer nada”. Não estou falando em não fazer nada no sentido de assistir a um filme, entrar no Facebook ou ler um livro. Tudo isso é ótimo, mas não é “não fazer nada”, na minha definição. A outra parte é que seja “sem propósito”. Acho que fazemos muitas coisas pensando que trarão algum benefício. A comida, por exemplo: não comemos porque tem um gosto bom; comemos porque é saudável, porque tem nutrientes, fibras, proteínas ou algo assim. E acho que isso é um pouco vergonhoso. Eu acredito que, de alguma maneira, quase toda cultura ou todo idioma tem algo similar ao niksen, apenas varia de acordo com a linguagem. Em inglês, eles falam doing sweet, sweet nothing, que seria “fazer deliciosamente nada”. Então existe essa associação de que não fazer nada pode ser algo bom, mas também uma coisa meio imprópria, sabe?

O que especificamente atraiu você ao niksen em vez das outras maneiras culturais de não fazer nada?

Para mim, foi por causa do meu interesse em idiomas. Eu falo polonês, alemão, francês, inglês e holandês, que é a minha quinta língua. E achei brilhante que na Holanda você pode falar “não fazer nada” em apenas uma palavra. A outra parte que eu achei interessante foi ao ler em uma revista holandesa o título Niksen é o novo Mindfulness. Eu andava lendo tanto sobre estresse, saúde mental e autocuidado, que pensei que se tratava apenas de outra maneira de falar para as pessoas melhorarem a si mesmas o tempo todo. Porque é sempre dito que você deve se dedicar mais ao trabalho, aos filhos, à cozinha, às compras, que você deve ler todos os rótulos. Isso é exaustivo. Então eu pensei que, OK, talvez poderia ser bom não fazer nada e deixar de buscar melhorar a si mesmo a cada segundo.

Existe uma maneira ideal de praticar niksen?

Tendo a acreditar que não é algo que você faz direto por uma hora, e sim um pouco aqui, um pouco ali. Por exemplo, tenho uma massa de pão fermentando neste momento na minha cozinha. E apenas sigo a receita: preciso esticar e dobrar a massa durante 13 minutos, a cada meia hora. No meio disso, tenho algum tempo para não fazer nada. Acho que acaba sendo algo que você faz durante outras tarefas. Mais um caso: eu leio meu livro, então coloco ele de lado e penso sobre o que acabei de ler, tento entender o que aconteceu na história ou apenas paro em uma frase que me chamou atenção. Isso é uma forma de não fazer nada. Quando as pessoas param para pensar sobre isso, percebem que poderiam não fazer nada mais do que imaginavam.

Na sua opinião, por que não fazer nada é tão necessário ao atual estilo de vida da nossa sociedade?

Um dos motivos tem a ver com uma mudança na nossa maneira de trabalhar. Houve uma grande revolução industrial em que as pessoas começaram a construir fábricas e a produzir coisas em grandes quantidades. E, pelo menos no Ocidente, isso mudou o modo de trabalhar, uma vez que você não precisava mais fabricar seu próprio par de sapatos. Por outro lado, passou a ser possível fabricar milhares de pares ao mesmo tempo. E por causa disso, as pessoas começaram a acreditar que poderiam trabalhar menos e ter mais tempo de lazer. Mas, infelizmente, o que aconteceu foi que o trabalho se tornou uma espécie de símbolo de status. Você precisa mostrar que está ocupado, não necessariamente trabalhando; que é requisitado pelo mercado; que é uma pessoa muito importante. Enquanto as pessoas que estão sem fazer nada são vistas como não requisitadas, como se ninguém quisesse trabalhar com elas. Isso foi uma mudança total em relação ao que acontecia antes, quando coisas como ser gordo ou sedentário e não fazer nada eram símbolos de riqueza das altas classes.

Agora, acho que estamos em uma situação similar à da Revolução Industrial, não com máquinas, mas com computadores. Os computadores estão fazendo cada vez mais e mais o nosso trabalho e, claro, surge a ideia de que trabalharemos menos. Mas o que eu acho que está acontecendo é que o trabalho está se tornando um recurso, como a comida ou o dinheiro, do qual algumas pessoas têm muito e outras não têm o suficiente. E vejo que isso
é algo global, está acontecendo na mesma velocidade em todo o mundo.

Olga Mecking, autora de Niksen — Abraçando a arte holandesa de não fazer nada (Foto: Divulgação)
Olga Mecking, autora de Niksen — Abraçando a arte holandesa de não fazer nada (Foto: Divulgação)

E por que não fazer nada parece algo tão assustador para muitas pessoas?

Aparentemente, fazer nada assusta as pessoas porque elas não estão mais acostumadas a isso, elas não têm mais a experiência de se sentar e realmente não fazer nada. Elas sentem que devem ser ocupadas a todo o tempo. E isso não acontece somente por causa das expectativas sociais criadas pelo fato de as máquinas cada vez fazerem mais o nosso ofício: nós nos sentimos como se sempre tivéssemos que estar fazendo algo no trabalho, em casa, cuidando das crianças e que devemos gerenciar nosso tempo de maneira eficiente, pois cada segundo conta.

E qual o problema disso?

Acredito que estar ocupado não é algo ruim por si só, uma vez que pode significar também que você tem uma boa vida e um trabalho que lhe dá sustento. Significa que você tem amigos e família com quem passa o tempo. E isso não é algo ruim, mas eu acho que avançamos tanto para uma espécie de glorificação do estar ocupado, que esquecemos de
diminuir um pouco o ritmo. O que está acontecendo — e aparecendo em rankings de bem-estar — é que estamos cada vez mais esgotados e nos sentindo culpados quando não fazemos nada. Você acaba sentindo que cada hora de sua vida deve ser gasta de maneira eficiente, caso contrário estará apenas perdendo tempo.

No seu livro, quando você lista as tarefas que impedem as pessoas de não fazer nada, como planejar o jantar, cuidar das crianças e limpar a casa, fica evidente que as mulheres parecem particularmente sobrecarregadas. O niksen é mais difícil para elas do que para os homens?

Acredito que sim, embora não signifique que para os homens seja fácil não fazer nada. Mas para eles é, sim, mais fácil do que para as mulheres. O que acontece é que as mulheres gastam mais tempo com atividades não remuneradas, como fazer faxina, cuidar dos filhos, dos idosos e dos parentes doentes, além de todas as outras tarefas domésticas. Acho que isso é fruto de uma visão global sobre como as pessoas enxergam o tempo para os homens e para as mulheres. O tempo dos homens é visto como um recurso valioso, escasso, que você precisa gastar com muito cuidado, ao passo que o das mulheres é considerado um grande oceano. Isso significa que você pode interromper uma mulher a qualquer momento e ela terá tempo para você. Em Overwhelmed, a autora Brigid Schulte diz que homens são melhores em proteger seu próprio tempo. Então é OK para eles dizerem “agora não, estou ocupado”. E as mulheres não só não protegem seu próprio tempo, como também protegem o tempo dos homens, o que acaba levando a essa sensação de esgotamento e à necessidade de ser boa e conseguir fazer tudo sozinha.

Quais fatores têm maior influência em nossas habilidades ou maneiras de praticar niksen?

É um conjunto de fatores. Como indivíduos nós podemos dizer: “Vou utilizar um pouco mais de tempo do meu dia para não fazer nada ou organizar a minha casa. Estou na minha cadeira confortável e como meu telefone não fica na minha mesa o tempo todo, vou deixá-lo de lado.” Isso de forma individual. Mas penso que uma abordagem hierárquica é também muito importante. Por exemplo, em empresas norte-americanas, as pessoas perceberam
que quando a licença-paternidade era oferecida aos pais, ninguém a utilizava. No entanto, quando gerentes e chefes passaram a aproveitar seus benefícios de licença-paternidade, as pessoas começaram a desacelerar e ver que isso era aceitável. As pessoas se espelham em seus chefes e gestores. Penso que, como sociedade, poderíamos nos tornar mais cientes do nosso tempo de lazer e da forma como o utilizamos. Acho que coisas simples, como a infraestrutura, podem ser reorganizadas em nossas cidades para ter mais espaços verdes, bancos ou lugares para sentar. Isso nos ajuda a não fazer nada, alcançando um relaxamento.

Aprender a praticar niksen pode nos ajudar a lidar com o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19?

Depende da situação. Eu sempre trago o exemplo de como é meu dia quando as escolas estão fechadas ou quando estão abertas. Quando estávamos naquelas primeiras semanas de ensino a distância, que foram um desastre, eu acabava ficando tão cansada que não conseguia fazer mais nada. E, quando as escolas reabriram, foi diferente, porque passei a ter mais espaço para respirar, trabalhar e não fazer nada, ter novas ideias ou simplesmente dar uma pausa do trabalho para caminhar na rua. São situações muito diferentes. Sei que existem pessoas que, de repente, se viram com muito mais tempo livre sobrando e começaram a aprender coisas como fazer pão de fermentação natural ou grandes projetos culinários. Mas também há aquelas que apenas estão totalmente exaustas com o trabalho, com a escola das crianças, com as atividades domésticas e tudo o mais. Então devemos sempre especificar sobre qual grupo estamos falando, porque as respostas serão distintas.

Como convencer as pessoas de que elas realmente se beneficiariam com uma folga ou o tempo para não fazer nada quando às vezes elas mal têm os meios para sobreviver com tudo o que já fazem?

Depende do tipo de trabalho que você está fazendo. O trabalho criativo, por exemplo, tem aquela parte que é muito visível, quando você está pintando ou escrevendo algo. Mas também existe muito do trabalho que você faz em silêncio, quando está andando ou fazendo outra coisa. Às vezes, é quando você está tomando banho que as ideias vêm, e depois você fica refletindo sobre aquilo por um tempo. Tudo acontece na sua cabeça sem que ninguém perceba, mas naquele momento você está meio que trabalhando, mesmo
que pareça não estar fazendo nada. No entanto, esse tempo de incubação é tão importante quanto a parte visível de quando você faz algo. O mesmo acontece no escritório, quando você está procurando uma maneira de melhorar sua empresa. Nem sempre essas respostas virão em grandes sessões de brainstorming visíveis, as ideias não tendem a acontecer quando estamos na correria e tentando nos concentrar nos problemas.

Há limites para o niksen?
Tem um capítulo inteiro no meu livro que fala sobre o que fazer quando o niksen não está funcionando, mas acho que a depressão é um dos principais fatores. Uma mulher enlutada que conversou comigo disse que todo mundo falava para ela não fazer nada, mas ela sentiu que sair, fazer coisas e trabalhar a ajudou a passar pelo luto. Esse é apenas um exemplo, e não quero generalizá-lo para todo mundo que tem depressão, especialmente para aqueles que sofrem tanto que não encontram forças para fazer qualquer coisa além de ficar em casa sem fazer nada. Claro, existem outros exemplos. Alguns trabalhos requerem que você esteja sempre fazendo coisas na rua, e você não pode ficar sem fazer nada, senão é demitido.

Para finalizar, o que você gostaria que as pessoas aprendessem com seu livro?

Espero que você leia o livro, observe as partes que funcionam para você e então as aplique. Absorva tudo o que você acha que é útil. Feito isso, pode ignorar todo o resto.

Niksen – Abraçando a arte holandesa de não fazer nada. Editora Rocco. 192 páginas. R$49,90 (Foto: Divulgação)
Niksen – Abraçando a arte holandesa de não fazer nada. Editora Rocco. 192 páginas. R$49,90 (Foto: Divulgação)

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