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Humanos também viveram na caverna onde denisovanos foram descobertos

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Entrada da Caverna Denisova, o famoso local no sul da Sibéria onde foram encontrados restos de neandertais e de seus parentes asiáticos, os denisovanos. (Foto: Richard G. Roberts)
Entrada da Caverna Denisova, o famoso local no sul da Sibéria onde foram encontrados restos de neandertais e de seus parentes asiáticos, os denisovanos. (Foto: Richard G. Roberts)

A Caverna Denisova, localizada nas Montanhas Altai, na Sibéria, é conhecida por ser o lugar onde os humanos modernos descobriram a existência dos denisovanos, um tipo de hominídeo extinto que habitava regiões do centro e do leste asiático. Resquícios de neandertais também já foram encontrados ali, inclusive os de uma criança cuja mãe era neandertal e o pai, denisovano. Mas, segundo um novo estudo, Homo Sapiens, a espécie dos humanos modernos, também passaram por lá.

Uma equipe interdisciplinar formada por arqueólogos, geneticistas, geocronologistas e cientistas de outras áreas — liderada por Michael Shunkov, da filial siberiana da Academia Russa de Ciências — divulgou nesta quarta-feira (23) os achados de um estudo surpreendente. Publicada na revista científica Nature, a pesquisa traz a maior análise já feita de DNA de sedimentos de um único local escavado. “A análise do DNA do sedimento oferece uma oportunidade maravilhosa de combinar as datas que determinamos anteriormente para os depósitos na Caverna Denisova com evidências moleculares da presença de pessoas e fauna”, destaca Richard ‘Bert’ Roberts, da Universidade de Wollongong, na Austrália, em comunicado.

O grupo coletou mais de 700 amostras de sedimentos em todas as três câmaras da caverna. “Documentar suas localizações precisas levou mais de uma semana”, conta a arqueóloga Zenobia Jacobs, que também chefiou a missão. Quando o material recolhido foi enviado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, Elena Zavala, a principal autora do estudo, passou mais dois anos no laboratório para extrair e sequenciar traços de hominídeos antigos e DNA mitocondrial de animais. “Esses esforços valeram a pena e detectamos o DNA de denisovanos, neandertais ou humanos modernos antigos em 175 das amostras”, revela Zavala.

Pesquisadores Zenobia Jacobs, Bo Li e Kieran O'Gorman coletando amostras de sedimentos na câmara principal da Caverna Denisova (Foto: Richard G. Roberts)
Pesquisadores Zenobia Jacobs, Bo Li e Kieran O’Gorman coletando amostras de sedimentos na câmara principal da Caverna Denisova (Foto: Richard G. Roberts)

Ao comparar os perfis de DNA com as idades das camadas de sedimentos, os pesquisadores descobriram que o DNA de hominídeo mais antigo pertencia aos denisovanos, indicando que eles produziram as primeiras ferramentas de pedra no local, entre 250 mil e 170 mil anos atrás. Os neandertais chegaram à caverna no final desse período e conviveram com denisovanos por lá — exceto entre 130 mil e 100 mil anos atrás, quando nenhum DNA denisovano foi detectado nos sedimentos. Os denisovanos que voltaram depois dessa época carregavam um DNA mitocondrial diferente, sugerindo uma nova população.

Já o DNA mitocondrial de Homo Sapiens aparece pela primeira vez nas camadas que contêm as ferramentas iniciais do Paleolítico Superior. “Isso fornece não apenas as primeiras evidências de humanos modernos antigos no local, mas também sugere que eles podem ter trazido novas tecnologias para a região”, analisa Zavala.

Os autores identificaram dois períodos em que ocorreram mudanças nas populações de animais e hominídeos na caverna. O primeiro, há cerca de 190 mil anos, coincidiu com uma mudança climática de condições relativamente quentes (interglaciais) para um clima mais frio (glacial). Nessa época, populações de hienas e ursos mudaram e os neandertais apareceram pela primeira vez na caverna. A segunda grande alteração ocorreu entre 130 mil e 100 mil anos atrás, junto com uma mudança no clima de relativamente frio para relativamente quente. Durante esse período, os denisovanos estavam ausentes e as populações de animais mudaram novamente.

Os autores estão em êxtase com os achados. “Ser capaz de gerar dados genéticos tão densos a partir de um sítio arqueológico é como um sonho que se tornou realidade, e isso é apenas o começo”, avisa Matthias Meyer, o autor sênior do estudo. “Há tanta informação escondida nos sedimentos — isso vai nos manter ocupados por toda a vida, assim como muitos outros geneticistas.”

Galileu