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Imagens coloridas do Sars-CoV-2 são vistas como menos científicas

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Foto em preto e branco do Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19 (Foto: Fiocruz)

Foto em preto e branco do Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19 (Foto: Fiocruz)

Não era de alta qualidade, mas uma imagem divulgada pelo Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças (CCDC, na sigla em inglês) no dia 24 de janeiro de 2020, antes mesmo do novo coronavírus ser batizado com a sigla Sars-CoV-2,  já nos permitia vislumbrar o “rosto” do vírus causador da Covid-19. O registro foi logo substituído por outros de maior resolução publicados no mês seguinte pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), nos Estados Unidos.

Em pouco tempo, no entanto, essas microscopias eletrônicas — originalmente em preto e branco — começaram a circular na internet com outra roupagem: algumas foram retocadas com cores falsas; outras viraram ilustrações coloridas e tridimensionais do patógeno. Muitas delas também foram reproduzidas por veículos de comunicação (inclusive GALILEU) com o objetivo de facilitar o reconhecimento da presença do agente infeccioso.

Mas, será que essas versões afetaram a percepção do público a respeito do vírus? Foi com essa pergunta em mente que pesquisadores do Instituto Espanhol de Rádio e Televisão da Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, decidiram lançar um formulário online para que o público avaliasse como se sentia ao visualizar 46 imagens diferentes do novo coronavírus.

Havia um pouco de tudo: fotografias em preto e branco, ilustrações, imagens coloridas, imagens em 2D e em 3D. Em uma escala de 1 a 5, os participantes foram solicitados a pontuar o que o registro representava para eles levando em conta seis parâmetros: beleza, qualidade científica, realismo, nível de infectividade do vírus, nível de medo e caráter didático.

Os resultados da investigação, que obteve 91.908 respostas, foram publicados em agosto no periódico científico PLoS One. A análise sugere que os atributos das fotos do Sars-CoV-2 podem, sim, afetar a percepção das pessoas sobre o vírus: enquanto as imagens em preto e branco foram pontuadas como mais feias, porém mais científicas e realistas, as ilustrações e imagens coloridas — principalmente as que usavam cores quentes — foram classificadas como irrealistas e pouco científicas, apesar de mais bonitas

Quando questionados sobre o quão contagioso o coronavírus aparentava ser pelas imagens, os voluntários responderam ainda que aquelas em preto e branco também pareciam mostrar vírus com maior capacidade de infecção, enquanto as coloridas obtiveram menor pontuação nessa categoria. Além disso, as fotos em preto e branco foram consideradas as mais didáticas, enquanto aquelas com cor foram tidas como menos didáticas.

A, B, C, D: Primeiras imagens reais com cor falsa do coronavírus publicado em 13 de fevereiro de 2020 pelo NIAID. E: Primeiro modelo 3D de domínio público do coronavírus do CDC publicado em 30 de janeiro de 2020. (Foto: A, B, C, D, NIAID. E, Public Health Image Library (PHIL), de Alissa Eckert e Dan Higgins)

A, B, C, D: Primeiras imagens reais com cor falsa do coronavírus publicado em 13 de fevereiro de 2020 pelo NIAID. E: Primeiro modelo 3D de domínio público do coronavírus do CDC publicado em 30 de janeiro de 2020. (Foto: A, B, C, D, NIAID. E, Public Health Image Library (PHIL), de Alissa Eckert e Dan Higgins)

Segundo um outro estudo publicado pelo mesmo grupo de pesquisadores em maio de 2020, as ilustrações 3D coloridas do Sars-CoV-2 foram justamente as mais utilizadas pela mídia global desde o início da pandemia. Por isso, para a equipe, a questão que se coloca é se a mídia deve ou não continuar usando “imagens bonitas” ou optar pelas reais ao “oferecer informações sobre um tema tão sério e desagradável como uma pandemia”.

“Nossos resultados nos levam a pensar que é possível que a percepção pública provocada pelas representações visuais do Sars-CoV-2 possa ter impactado o comportamento das pessoas (por exemplo, disposição para o distanciamento social) e estados emocionais (como a ansiedade)”, afirma o estudo. “Por esse motivo, sugere-se que os comunicadores científicos atentem para esses resultados para a comunicação da ciência em contextos de saúde futuros, nos quais o comportamento da população é fundamental”.

Os pesquisadores ponderam que estudos adicionais que utilizam técnicas neurocientíficas podem ser necessários para obter conclusões mais acuradas sobre a relação entre como as imagens do coronavírus são percebidas e como isso pode influenciar o comportamento de um indivíduo.

Embora a representação visual na ciência seja descrita pelo grupo como um “tema ainda pouco estudado na comunicação em saúde”, eles consideram que estudos como esse são importantes para orientar o uso de recursos audiovisuais no ramo, bem como servir de guia para ilustradores científicos e profissionais da mídia no geral.

“Os meios de comunicação têm uma grande responsabilidade na divulgação das informações corretas ao seu público, inclusive as imagens utilizadas”, avalia Miguel Ángel Martín-Pascual, um dos autores da investigação, em comunicado.

Galileu