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Imposto alto e pouca infraestrutura são o pior do Brasil, diz CEO da Fiat

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O presidente da Fiat Chrysler para a América Latina, Antonio Filosa, 47 anos, diz que a alta carga de impostos sobre as empresas e uma infraestrutura deficitária são o pior do Brasil.

O executivo explica que a companhia tem fábricas brasileiras com tecnologia de ponta. Porém, segundo ele, as unidades não conseguem ser tão competitivas como as de nações do mesmo porte.

“O setor automobilístico no Brasil tem uma competitividade muito menor que o do México, da Ásia e da Europa. E não é por causa da tecnologia. As nossas fábricas e as dos nossos fornecedores são igualmente automatizadas. Por exemplo, o polo automotivo de Goiana [Pernambuco] é o mais avançado da FCA [Fiat Chrysler Automobiles] no mundo inteiro”, diz.

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Filosa preside a divisão da FCA para a América Latina desde 2018. A companhia conta com 26.000 colaboradores na região. O grupo detém as marcas Fiat, Chrysler, Jeep, Alfa Romeo, Maserati, Dodge e Ram.

Italiano, Filosa fala português com fluência. Ele deu entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, apresentador do Poder em Foco. O programa é uma parceria editorial do SBT com o jornal digital Poder360.

Foi gravado em 13 de agosto de 2020, por videoconferência. Assista abaixo (49min14s):

Filosa defende a realização das reformas liberais encampadas pela equipe econômica do governo Bolsonaro. Diz ser necessária uma mudança no modelo de cobrança de tributos no país.

Indagado se a ideia do ministro Paulo Guedes (Economia) de criar 1 microimposto digital sobre transações é positiva, respondeu ser preciso analisar melhor a proposta.

“O governo está gradualmente abrindo o Brasil aos mercados globais e trabalhando na competitividade da indústria. Parece-me que a reforma tributária tem isso como objetivo principal. Como vai ser feito, será definido com o Congresso.”

Na análise do executivo, o governo “lutou muito” para colocar a economia nos trilhos. Diz, no entanto, que será necessário fazer muito mais nos próximos meses para mitigar os efeitos econômicos pós-pandemia. “A agenda me parece correta para o futuro”, afirma.

COVID-19 NAS FÁBRICAS 

Em 23 de março, a produção de veículos foi interrompida nas fábricas por causa do coronavírus. “É 1 dia que nunca vamos esquecer”, diz Filosa.

A paralisação durou 50 dias. Nesse período foi traçada uma estratégia para a retomada.

Segundo Filosa, a saúde dos 26.000 funcionários é monitorada diariamente. Foi criado 1 aplicativo. Cada colaborador tem que responder se está bem ou se teve contato com alguém infectado.

A temperatura corporal é medida na entrada de cada fábrica. Se estiver acima de 36,8º C, a pessoa é retestada. Depois, passa por uma avaliação médica. Em caso de febre, é afastada das funções.

A frota de ônibus usada para levar os funcionários até as fábricas teve que ser dobrada para cumprir o distanciamento. Eram cerca de 500 veículos. Hoje, são 1.000. Há ainda 1 profissional chamado “capitão da saúde” em cada coletivo para orientar os colaboradores sobre as medidas de segurança.

“Todas as produções voltaram, mas não 100%. Estamos modulando os turnos e a velocidade da linha de produção para adequar de acordo com a demanda de carros”, afirma.

Há 1 distanciamento de 1,5 metro entre os funcionários na linha de montagem. A empresa colocou uma divisão transparente de plástico onde não foi possível fazer essa adaptação. Todos são obrigados a usar máscaras cirúrgicas fabricadas nas próprias unidades. 

“Nós adquirimos uma linha de produção de máscaras. Fazemos 1,5 milhão de máscaras cirúrgicas por mês. Usamos 1 milhão e doamos meio milhão ao Estado de São Paulo.”

Indagado sobre o custo dessas mudanças, Filosa diz que as despesas com segurança foram triplicadas.

“O importante é que conseguimos retomar a produção. Precisamos de faturamento para construir nosso futuro como empresa. Paralelamente, fazer isso preservando os 26.000 colegas. Investimos algumas dezenas de milhões. Não quero falar o número em si. Mas o custo da nossa segurança triplicou. Quando a covid for resolvida, voltaremos ao nosso custo normal. O investimento ficará –espero nunca mais ter próximas emergências.”

No início da pandemia, a empresa ainda colaborou com a construção de 2 hospitais de campanha para o tratamento da covid-19 em Minas e em Pernambuco. A capacidade é 300 leitos.

“Formamos 18 profissionais para fazer manutenção em respiradores. Já fizemos manutenção em mais de 150 respiradores. Compramos tecnologia de ponta para fazer máscaras. A finalidade foi puramente humanitária. Se isso tem reflexo nas vendas, sinceramente não sei. É difícil de medir. Mas tem reflexo na reputação de longo prazo das empresas.”

Mesmo com a fim da pandemia, Filosa acha que muitos protocolos de higiene deverão ser mantidos. “A vacina chegará, mas haverá uma insegurança. Será bom para as pessoas ter o conforto de ver uma empresa preocupada com elas”. 

IMPACTOS DA PANDEMIA

O executivo diz que o grupo não tem intenção de deixar o mercado brasileiro. Afirma que a montadora manterá os investimentos de R$ 16 bilhões em novas fábricas, produtos e serviços. Os aportes estavam programados para ser concluídos até 2024. Por causa da pandemia, foram esticados até 2025.

Filosa relata que a família Elkann, da dinastia italiana Agnelli, fundadora da Fiat, tem muito apreço pelo país.

“Claramente temos 1 problema grave agora. Mas mantemos o nosso otimismo para o futuro. Temos 1 carinho forte do nosso acionista com o Brasil. A família Elkann já morou no Rio de Janeiro, falam muito bem português. A mistura desses 2 fenômenos faz o nosso plano ser confirmado para 2025.”

Filosa estima que o setor automobilístico brasileiro registrará queda nas vendas de 30% a 40% em 2020 na comparação com 2019. O mesmo deve ocorrer em toda a América Latina.

A estimativa de Filosa está em linha com a da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). A associação espera que as vendas em 2020 caiam 40% em relação a 2019, para 1,67 milhão de unidades. Significa uma redução de 1,1 milhão na comparação anual.

Na análise de Filosa, o fundo do poço da crise econômica foi o 2º trimestre. “Neste momento, a região mais impactada é a latino-americana, infelizmente. A queda que nós tivemos no último trimestre foi de 60%. Isso é quase o dobro do que aconteceu na América do Norte, na Europa e na Ásia –onde alguns mercados como a China já estão retomando”.

Mas Filosa está otimista. Avalia que os indicadores recentes da economia apontam para uma recuperação. Ele espera 1 resultado mais robusto nos últimos 3 meses do ano. É quando a população recebe o 13º salário e costuma comprar mais veículos.

“Acabamos de lançar o novo Fiat Strada, que também está indo muito bem. Há uma demanda bastante interessante”. Segundo o CEO, o bom desempenho das vendas do modelo está relacionado a duas tendências:

  • construção civil e agronegócio – os 2 setores têm tido bom desempenho na crise. A picape foi desenhada para carregar mercadorias. “Como a Toro, é uma perfeita ferramenta de trabalho”, diz; 
  • turismo – “As famílias, 1 pouco cansadas de ficarem confinadas, querem voltar a ter uma vida ativa na natureza. Para isso, o Fiat Strada pode ajudar elas”.

Filosa relata que os SUVs (Veículos Utilitários Esportivos, na tradução literal) tiveram uma retração menor de vendas. Um a cada 5 SUVs vendidos no Brasil é da Jeep.

O CEO conta que o segmento de veículos premium da FCA, acima de R$ 250 mil, chega a vender 50.000 unidades por ano.

Sobre os carros de luxo das marcas Ferrari e Maserati, diz que a demanda é estável. “Claramente a capacidade de compra desses consumidores é pouco impactada pela pandemia. São poucas dezenas por ano. Diria que, juntas, as duas marcas vendem de 100 a 120 unidades por ano”. Esses veículos custam a partir de R$ 800 mil no Brasil.

ACORDOS TRABALHISTAS

O presidente da automobilística diz que o Brasil criou 1 dos melhores programa do mundo de suporte às empresas durante a pandemia. “Não demitimos ninguém e vamos manter o quadro até o final do ano.”

Filosa refere-se ao Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, criado pelo governo federal.

As regras foram definidas por meio de uma Medida Provisória (de nº 936). A iniciativa permite a suspensão do contrato de trabalho ou redução da jornada de 25% a 70%. A União paga os empregados com base no seguro-desemprego a que teriam direito. Quase 9,5 milhões de pessoas foram assistidas até o início do mês.

Filosa deu parabéns ao governo pela iniciativa. “Teve outros países que não adotaram medidas e o impacto do desemprego foi pior. A MP 936 é uma das melhores medidas globalmente na flexibilização e redução do custo do trabalho. Foi muito rápida. Chegou à indústria de forma clara. E a maioria das empresas adotaram ela”.

De acordo com o executivo, a demissão é desvantajosa para as automobilísticas. Diz que é a última opção. “São 6 meses de recursos que perdemos toda vez que decidimos demitir 1 colega. Além do laço emocional, existe 1 custo em cada demissão muito maior do que admissão”.

A incerteza agora será sobre o comportamento da economia depois do final do programa. O presidente da automobilística diz que, se a crise não cessar até o final do ano, “será 1 desafio”.

APOSTA NO ETANOL

A FCA aposta no desenvolvimento de motores de alta eficiência para o uso do etanol brasileiro (combustível feito a partir do processo de fermentação da cana-de-açúcar).

O uso do combustível é uma alternativa sustentável até a consolidação de carros elétricos e híbridos.

“É uma riqueza única. O Brasil é o país que mais produz etanol no mundo, e de melhor qualidade. O etanol da cana-de-açúcar produzido no Brasil tem características melhores que o do milho dos Estados Unidos. Há uma riqueza de ter uma distribuição em cada posto de gasolina. Quem produzir etanol no Brasil tem tecnologia de ponta. O etanol na equação da poluição é quase tão eficiente como o motor elétrico. Porque no ciclo total, do plantio até a combustão do carro, é neutro. Tem características ambientais muito positivas, características industriais únicas e uma rota de desenvolvimento para quem produz, distribui e pesquisa.” 

Filosa destaca a ajuda do programa Rota 2030. A iniciativa lançada em julho de 2018 concede benefícios fiscais a montadoras que se comprometerem a investir em pesquisa e desenvolvimento. “É 1 programa espetacular”, afirma. “A grande riqueza do Rota 2030, além de incentivar o elétrico e o híbrido, é permitir esse caminho”.

O executivo explica que o programa faz parte do marco regulatório do setor. Diz que as iniciativas são comuns em vários países, como Itália, Estados Unidos e China. “São programas de eficiência energética. Ou seja, definem metas para a geração de CO2, poluição.”

CARROS ELÉTRICOS E HÍBRIDOS

Filosa conta que a montadora lançará em 2021 veículos mais sustentáveis. Estão na fila para importação o novo Fiat 500, totalmente elétrico, e as versões híbridas do Renegade e do Compass.

“É preciso 1 trabalho de engenharia para ajustes. Iremos testar o mercado. Quando o mercado estiver pronto, iremos implementar essas tecnologias na produção local.” 

VEÍCULOS NO BRASIL

O CEO diz que o brasileiro está deixando de ser conservador na compra de automóveis. Atualmente, 2 em cada 3 carros que circulam no país são brancos, pratas, cinzas ou pretos.

“Isso está mudando por causa da oferta. Cada vez mais estão chegando novos players no mercado”. Deu como exemplo os SUVs da Jeep. “Começou há cerca de 5 anos e agora há uma dezena de modelos, contando as marcas Volkswagen, General Motors e a própria Fiat”.

O executivo cita algumas dificuldades na hora de lançar carros no Brasil. Diz que há muita burocracia. Outro problema é relacionado à infraestrutura. “As ruas brasileiras têm algumas condições mais severas. Então, todo o sistema de amortização deve ser adequado para o país.”

Filosa conta que o brasileiro é exigente. Gosta que o ar condicionado esfrie rapidamente e os carros tenham alta tecnologia. “O consumidor brasileiro é o 2º mais conectado do mundo. Por isso que a nova rota de desenvolvimento de todas as marcas estuda a possibilidade de colocar o smartphone dentro do carro”. 

FUSÃO COM A PEUGEOT

A Fiat Chrysler e a Peugeot estão em processo de fusão. A unificação deve formar a 4ª maior fabricante de veículos do mundo.

A nova companhia foi batizada de Stellantis. O nome tem origem no verbo latino “stello”. Significa “iluminar com estrelas”.

Filosa explica que esse nome será usado apenas para se referir ao grupo. As marcas continuarão com suas nomenclaturas atuais, como Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën. “A marca é a principal fortaleza das duas corporações”, afirma.

Segundo o executivo, não haverá fechamento de fábricas. O cronograma de fusão não foi afetado pela pandemia. As companhias serão 1 único grupo na 1º metade de 2021. “Juntaremos recursos humanos e financeiros para multiplicar nossa oferta”. 

O GRUPO FIAT CHRYSLER

A Fiat foi fundada em 11 de julho de 1899 pelo italiano Giovanni Agnelli. O atual conglomerado automobilístico é resultado de uma fusão da Fiat e da norte-americana Chrysler, em 2014.

As ações da companhia são listadas na Bolsa de Valores de Nova York (EUA) e na Bolsa de Valores de Milão (Itália).

O grupo conta com mais de 40 fábricas e centros de pesquisa e 192 mil colaboradores.

Instalada no Brasil desde 1976, é líder no segmento de automóveis e comerciais leves. Mantém fábricas em Minas, Pernambuco e Paraná. Juntas, as marcas Fiat e Jeep venderam 2,8 milhões de veículos no ano passado. A cifra chegou a 4,5 milhões na América Latina.

A receita do grupo somou € 108,2 bilhões (R$ 708 bilhões) em 2019. O lucro no período foi de € 4,3 bilhões (R$ 30,7 bilhões). Eis a íntegra do balanço financeiro (31 páginas, em inglês).

A pandemia impactou as finanças da empresa no 2º trimestre deste ano. A receita foi de € 11,71 bilhões (R$ 76,6 bilhões), queda de 56,20% em relação ao mesmo período de 2019. Houve prejuízo de € 1,05 bilhão (R$ 6,9 bilhões), revertendo lucro de € 793 milhões (R$ 5,1 bilhões) no mesmo período do ano passado. Eis a íntegra do balanço financeiro (5 páginas, em inglês). 

QUEM É ANTONIO FILOSA  

Antonio Filosa tem 47 anos. Nasceu em Nápoles, na Itália.

É formado em engenharia pelo Instituto Politécnico de Milão e em gestão na Fundação Dom Cabral.

Está na Fiat desde 1999. Já ocupou diversos cargos na mesma empresa na Espanha, nos Estados Unidos, na Itália e na Argentina. Desde 2005, atua no Brasil.

Em 2014, a Fiat se juntou com a Chrysler.

Desde abril de 2018, Filosa comanda a divisão do grupo para a América Latina. Atualmente, ele mora na capital mineira, nas proximidades da fábrica da Fiat em Betim, em Minas Gerais.

PODER EM FOCO

O programa semanal, exibido aos domingos, sempre no fim da noite, é uma parceria editorial entre SBT e Poder360. O quadro reestreou em 6 de outubro, em novo cenário, produzido e exibido diretamente dos estúdios do SBT em Brasília.

Além da transmissão nacional em TV aberta, a atração pode ser vista nas plataformas digitais do SBT Online e no canal do YouTube do Poder360.

Eis os outros entrevistados pelo programa até agora, por ordem cronológica:

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