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Insulina: a história do hormônio essencial no tratamento da diabetes

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100 anos de insulina (Foto: Towfiqu barbhuiya/Unsplash)
100 anos de insulina: a história do medicamento e o futuro do tratamento (Foto: Towfiqu barbhuiya/Unsplash)

O canadense Leonard Thompson tinha apenas 14 anos e uma expectativa de vida de poucos meses quando foi admitido no Hospital Geral de Toronto, no Canadá, em dezembro de 1921. Pálido, mal nutrido, em coma, com queda capilar e pesando 29 quilos, o menino enfrentava os estágios finais do diabetes mellitus sob uma dieta de inanição, uma das únicas alternativas para lidar com a doença na época. O quadro foi revertido em 1922 graças a um medicameneto experimental que nunca havia sido testado em humanos: a insulina.

A injeção inicial, em 11 de janeiro de 1922, não apresentou benefícios clínicos. Os médicos decidiram aumentar a concentração de insulina do extrato e, no dia 23, Thompson recebeu outra injeção — e essa sim mostrou resultados imediatos. Até fevereiro, as aplicações eram quase diárias e o paciente estava mais ativo e se sentia mais forte.

Como a insulina ainda não era produzida em grandes quantidades, o ciclo foi interrompido até que, em outubro, Thompson teve acesso a um estoque de insulina capaz de sustentar as injeções frequentes. E assim o garoto viveu por mais 13 anos. Em 1935, ele veio a óbito em decorrência de uma pneumonia e, apesar de ter morrido aos 27 anos, o tempo que ganhou de vida foi considerado inédito, já que era extremamente raro diabéticos sobreviverem por mais de um ou dois anos.

Descoberta centenária

Se há 100 anos o diabetes era quase uma sentença de morte, hoje é uma doença totalmente gerenciável, e isso se deve à descoberta da insulina, história marcada pelo canadense Frederick Banting. Fascinado pelo papel do pâncreas na regulação do metabolismo de açúcar e carboidratos, o cirurgião mergulhou em artigos científicos e estudos sobre o tema em 1920.

Naquele tempo, já se sabia que o diabetes estava relacionado ao pâncreas e, mais especificamente, às ilhotas de Langerhans (um aglomerado de células onde a insulina é sintetizada). Banting teve, então, uma ideia para isolar uma secreção interna da glândula que vinha das ilhotas pancreáticas e levou a proposta ao fisiologista John Macleod, da Universidade de Toronto. Em 1921, iniciaram-se os experimentos em cachorros, com o estudante Charles Best se juntando à equipe.

Embora fosse difícil isolar substâncias, em 27 de julho foi possível obter um extrato com um hormônio que melhorou expressivamente o diabetes de um dos animais. A descoberta da insulina rendeu a Banting e Macleod o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1923, cujo mérito e valor foram compartilhados informalmente com Best e James Collip, bioquímico que conseguiu purificar o extrato pancreático e diminuir os efeitos colaterais após a primeira injeção do medicamento ser administrada no jovem  Thompson.

Perspectivas para o futuro

A descoberta da insulina revolucionou a medicina no século 20 e continua sendo muito valiosa nos dias de hoje. No mundo inteiro, existem cerca de 460 milhões de adultos entre 20 e 79 anos vivendo com diabetes, que é decorrente da queda da ação da insulina e do aumento dos níveis de glicose. O diabetes tipo 1 é caracterizado pela ausência completa da insulina no corpo, que é responsável por controlar o nível de açúcar no sangue e permitir que a glicose entre nas células. O tipo 2 é atribuído a pessoas que têm insulina, porém apresentam resistência a ela.

Até 2045, espera-se um crescimento de 51% nos diagnósticos, fazendo com que o número aumente para 700 milhões, de acordo com dados disponibilizados em 2019 pela Federação Internacional de Diabetes. E o Brasil, sendo o 5º país com maior número de diabéticos, é um dos locais que mais sofre com a doença. Em 2019, foram contabilizados quase 17 milhões de brasileiros vivendo com diabetes, e, em 2045, a expectativa é de que haja cerca de 26 milhões.

“Aqui, quase 5% dos óbitos de 2019 estavam relacionados a diabetes e suas complicações”, afirma a endocrinologista Erika Fortes, em evento da farmacêutica Novo Nordisk, empresa que produz 15% de toda a insulina comercializada globalmente. Entre as complicações existem as agudas, como hiperglicemia e hipoglicemia, e as crônicas, como doenças de retina, renais e cardiovasculares.

“O mais grave é que metade dessas mortes aconteceu em pessoas jovens, com menos de 60 anos, sendo que muitas das complicações podem ser evitadas com o controle adequado da doença”, observa Fortes. Uma das formas de tratamento é a caneta de insulina, fornecida pela Novo Nordisk e disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2018. Símbolo dos progressos feitos desde 1921, a caneta é mais prática do que a tradicional seringa de vidro, sendo mais fácil de transportar e de aplicar nos pacientes.

Além disso, mais avanços estão por vir. “Ainda existem desafios, como a adesão ao tratamento, que é um dos grandes problemas do dia a dia”, diz a endocrinologista Denise Franco, diretora da ADJ Diabetes Brasil. “O paciente precisa fazer contas para saber o nível da glicemia, determinar quanto vai comer naquele momento, decidir se vai fazer algum exercício, detectar se tem risco de hipoglicemia e não pode esquecer de aplicar a insulina”, exemplifica.

Para isso, Franco pontua que utilizar games para engajar os indivíduos nos comportamentos adequados e facilitar o aprendizado é um caminho a ser explorado tanto com crianças como com adultos. A tecnologia também deve ser utilizada nos próximos anos em scanners de alimentos que possam informar instantaneamente a quantidade de carboidratos, evitando que diabéticos façam contas o tempo todo.

Existem ainda estudos que buscam desenvolver insulinas inteligentes, que seriam ingeridas e conseguiriam agir sozinhas no corpo conforme a concentração de glicose, e pesquisas com insulinas semanais, que diminuiriam as aplicações de 365 para 52 no ano. A cura do diabetes ainda não está próxima, mas Denise Franco assegura que há muitos profissionais trabalhando para isso e, enquanto essa conquista médica não chega, outros elementos prometem melhorar o gerenciamento da doença e oferecer uma boa qualidade de vida aos diabéticos.

*Com supervisão de Larissa Lopes

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