ciência

Reservatórios de água improvisados aumentam risco de dengue após secas

56views
Reservatórios de água improvisados aumentam risco de dengue após secas. Larvas do Aedes Aegypti. (Foto: Marcos Santos/Jornal da USP)
Reservatórios de água improvisados aumentam risco de dengue após secas. Larvas do Aedes Aegypti. (Foto: Marcos Santos/Jornal da USP)

O aumento de secas e inundações registradas no Brasil devido às mudanças climáticas têm provocado uma crise nas redes de distribuição de água no país. Para contornar isso, são usados reservatórios de armazenamento de água improvisados — que, por outro lado, podem se tornar criadouros do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue.

Um estudo publicado na edição de abril da revista científica The Lancet Planetary Health indica que o uso desses recipientes improvisados após períodos de seca extrema pode aumentar o risco de casos de dengue em áreas altamente populosas no Brasil.

“A situação da dengue no Brasil é extremamente preocupante. Nosso trabalho destaca que o risco não está relacionado apenas às condições climáticas extremas, mas também aos sistemas de gestão da água e ao comportamento humano em áreas urbanas densamente povoadas”, afirma, em comunicado, Rachel Lowe, líder do estudo e pesquisadora da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores usaram modelos estatísticos que levaram em consideração padrões climáticos extremos para estimar a intensidade do risco e o período mais propício para se infectar no Brasil. A análise do risco em áreas urbanas e rurais foi feita a partir de dados sobre secas e inundações e, depois, combinados com informações sobre casos de dengue registrados entre 2001 e 2019, em 558 regiões do país.

Em áreas urbanas, o risco de contrair dengue é maior entre três a cinco meses após secas extremas. Sob condições de alta umidade, há um aumento no risco do próprio mês e nos três próximos meses. Já em áreas rurais, o risco está mais associado ao clima úmido.

A dengue é considerada uma das 10 principais ameaças à saúde global e o Brasil registra o maior número de casos no mundo — só em 2019, foram mais de 2 milhões de infectados. No país, os surtos são geralmente observados após temporadas de chuva e de seca, e a maioria das campanhas de prevenção à doença focam nesses períodos — mas pouco é feito após esses momentos. A pesquisa sugere que intervenções sejam feitas em mais períodos ao longo do ano e, em especial, no tempo apropriado para áreas urbanas com serviços precários.

“É imperativo que os governos invistam na infraestrutura local para garantir o abastecimento permanente de água e promover uma melhor higiene ambiental em áreas propensas a epidemias de doenças transmitidas por mosquitos”, defende Lowe.

A curto prazo, isso pode ajudar a eliminar criadouros próximos a domicílios e prevenir uma maior reprodução do mosquito Aedes aegypti em períodos de seca. Em fases chuvosas, contêineres de água devem ser mantidos fechados e o lixo deve ser descartado para evitar poças d’água.

Galileu