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Restos de vítimas da peste bubônica revelam enterros cuidadosos no século 14

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Esqueletos de pessoas que morreram de peste bubônica provenientes de sepultamentos em Cambridge, na Inglaterra (Foto: Cessford et.al /Cambridge Core )
Esqueletos de pessoas que possivelmente morreram de peste bubônica provenientes de sepultamentos em Cambridge, na Inglaterra (Foto: Cessford et.al /Cambridge Core )

Uma equipe de pesquisa da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, identificou vítimas de peste bubônica do século 14, que foram sepultadas de modo cuidadoso e individual, apesar do desespero diante da doença desvastadora ter feito com que vários indivíduos normalmente fossem enterrados em valas comuns no fim da Idade Média.

Os estudiosos do projeto chamado “After the Plague” (“após a praga”, em tradução livre) analisaram um total de 197 esqueletos, que datam entre 1349 e 1561 d.C. Os restos mortais haviam sido encontrados em cinco locais de enterro em Cambridge, incluindo um cemitério paroquial rural próximo. Os achados foram publicados na quinta-feira (17), no jornal científico Cambridge Core.

A peste bubônica é causada pela bactéria Yersinia pestis, que é transmitida por pulgas presentes em animais de pequeno porte, como ratazanas. Seres humanos expostos à infecção pelo microrganismo podem apresentar sintomas como a formação de nódulos pelo corpo, febre, calafrios, fraqueza e dificuldade para respirar.

A equipe de pesquisa identificou a presença do DNA da bactéria em dez amostras de dentes das ossadas, todas do século 14. Naquele período, a doença matou cerca de 40 a 60% da população europeia e a onda crescente de mortos fazia com que muitas pessoas fossem enterradas em massa.

Especialistas da Universidade de Cambridge estudaram esqueletos de vítimas de peste bubônica no século 14 (Foto: Cessford et.al /Cambridge Core )
Especialistas da Universidade de Cambridge estudaram esqueletos de vítimas de peste bubônica no século 14 (Foto: Cessford et.al /Cambridge Core )

Todavia, esse não foi o caso dos esqueletos, que receberam cuidados diferenciados. “Esses enterros individuais mostram que mesmo durante os surtos de peste, as pessoas eram enterradas com considerável cuidado e atenção. Isso é mostrado principalmente no convento onde pelo menos três desses indivíduos foram enterrados na sala do capítulo [onde se reúnem monges]”, conta Craig Cessford, principal autor do estudo, em comunicado.

Os pesquisadores estimam ainda que entre 2,3 a 3,5 mil pessoas morreram de peste bubônica em poucos meses somente no ano de 1349, em Cambridge. Os mortos foram enterrados em dezessete igrejas paroquiais, dois priorados e cinco conventos. 

Ilustração representa vítima de peste bubônica, doença causada pela bactéria Yersinia pestis (Foto: Mark Gridley)
Ilustração representa vítima de peste bubônica, doença causada pela bactéria Yersinia pestis (Foto: Mark Gridley/Universidade de Cambridge)

Cessford cita um indivíduo que foi sepultado com cuidado singular na Igreja All Saints, no centro de Cambridge. De acordo com o pesquisador, isso “contrasta com a linguagem apocalíptica usada para descrever o abandono desta paróquia em 1365”, quando foi relatado que o local “estava parcialmente em ruínas e os ossos de cadáveres expostos a bestas”.

“Nosso trabalho demonstra que agora é possível identificar indivíduos que morreram de peste e receberam sepultamentos individuais”, conta Cessford. “Isso melhora muito nossa compreensão da praga e mostra que mesmo em tempos incrivelmente traumáticos durante as pandemias anteriores, as pessoas tentaram arduamente enterrar os falecidos com tanto cuidado quanto possível”.

Galileu