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Selfies podem dar pistas sobre a saúde do coração

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Fotos do rosto podem dar indícios de doença arterial coronariana, indica estudo (Foto: Antoine Beauvillain / Unsplash)
Fotos do rosto podem dar indícios de doença arterial coronariana, indica estudo (Foto: Antoine Beauvillain / Unsplash)

Uma selfie pode revelar muito mais do imaginamos. Segundo um estudo publicado no European Heart Journal, fotos do rosto podem dar indícios da doença arterial coronariana, uma condição que afeta os vasos sanguíneos do coração.

Para a pesquisa, cientistas usaram um algoritmo que passa por um processo conhecido na área de computação como aprendizado profundo (ou deep learning). “Até onde sabemos, este é o primeiro trabalho que demonstra que a inteligência artificial pode ser usada para detectar doenças cardíacas através da análise de rostos. É um passo para o desenvolvimento de uma ferramenta baseada em aprendizado profundo que poderia ser usada para avaliar o risco de doenças cardíacas em clínicas ambulatoriais e também por meio de pacientes que fazem ‘selfies’ para realizar sua própria triagem”, disse em um comunicado o professor Zhe Zheng, vice-diretor do Centro Nacional de Doenças Cardiovasculares e vice-diretor do Hospital Fuwai, que pertence à Academia Chinesa de Ciências Médicas.

Cabelos ralos ou grisalhos, rugas, vinco no lóbulo da orelha e xantelasmas (pequenas bolsas amareladas de colesterol que ficam sob a pele, geralmente ao redor das pálpebras) são algumas das características faciais que estão associadas a um maior risco de doenças cardíacas. Porém, é difícil para humanos quantificarem esse risco corretamente apenas analisando esses traços no rosto de alguém.

Assim, Zheng e sua equipe estudaram 5.796 pacientes de oito hospitais na China que estavam sendo submetidos à cateterização coronária ou à angiotomografia computadorizada coronariana, procedimentos que permitem a análise dos vasos sanguíneos. Os indivíduos foram divididos aleatoriamente em dois grupos: de treinamento (5.216 pacientes) e de validação (580).

Além de passarem por uma entrevista sobre seu status socioeconômico, seu estilo de vida e seu histórico médico, os pacientes também tiveram seu rosto fotografado quatro vezes, de ângulos diferentes: uma imagem frontal, duas de perfil e uma vista do topo da cabeça. Com essas informações – e com as avaliações de radiologistas sobre os resultados dos angiogramas – os pesquisadores puderam treinar o algoritmo de aprendizado profundo, que depois foi testado em outros 1.013 pacientes de nove hospitais na China.

Cabelos ralos ou grisalhos, rugas e vinco no lóbulo da orelha são algumas das características faciais que estão associadas a um maior risco de doenças cardíacas (Foto: jesse orrico / unsplash)
Cabelos ralos ou grisalhos, rugas e vinco no lóbulo da orelha são algumas das características faciais que estão associadas a um maior risco de doenças cardíacas (Foto: jesse orrico / unsplash)

Então, os cientistas perceberam que a inteligência artificial teve uma performance melhor do que outros métodos de previsão de doenças cardíacas, como o Diamond-Forrester. No grupo de validação, o algoritmo detectou a doença cardíaca corretamente em 80% dos casos, e teve um acerto de 61% quanto aos casos em que o paciente não tinha a doença.

“O algoritmo teve um desempenho moderado, e as informações clínicas adicionais não melhoraram seu desempenho; o que significa que ele poderia ser usado para prever possíveis doenças cardíacas apenas com base em fotos do rosto”, considerou Xiang-Yang Ji, diretor do Instituto de Cérebro e Cognição do Departamento de Automação da Universidade de Tsinghua (China).

De acordo com o especialista, a bochecha, a testa e o nariz são as áreas do rosto que mais forneceram informações ao algoritmo. No entanto, Ji observou que a tecnologia ainda precisa ser aprimorada: “Precisamos melhorar a especificidade dela, pois uma taxa de falsos positivos de até 46% pode trazer ansiedade e inconveniência aos pacientes, e também pode sobrecarregar as clínicas com pacientes que exigem exames desnecessários”.

Os professores Zheng e Ji ainda levantaram outra preocupação em sua pesquisa: eles temem que as informações coletadas pelo algoritmo sejam usadas indevidamente por pessoas ou empresas. “[Esse temor] deve ser revisitado ​​em relação ao uso de inteligência artificial na medicina”, escreveram no estudo.

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