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Temperatura média da Terra na Era do Gelo era de 7,8 ºC, estima estudo

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Este mapa global mostra as diferenças de temperatura em comparação com os tempos pré-industriais. Azul escuro se traduz em temperaturas mais baixas. As camadas de gelo do passado se sobrepõem aos continentes. (Foto: Jessica Tierney)
Este mapa global mostra as diferenças de temperatura em comparação com os tempos pré-industriais. Azul escuro se traduz em temperaturas mais baixas. As camadas de gelo do passado se sobrepõem aos continentes. (Foto: Jessica Tierney)

Um estudo liderado pela Universidade do Arizona, dos Estados Unidos, estima que a temperatura média da Terra durante o Último Período Glacial (ocorrido há aproximadamente 20 mil anos) era de 7,8 ºC. Publicado na Nature na última quarta-feira (26), o artigo pode ajudar climatologistas a entenderem melhor a relação entre a temperatura global média e o atual aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

Os cientistas calculam que a temperatura média do planeta durante a Era do Gelo era 6 ºC mais fria do que a do último século, que era de 14 ºC. “Por experiência própria, isso pode não parecer uma grande diferença, mas, na verdade, é uma grande mudança”, afirma Jessica Tierney, professora associada do Departamento de Geociências da Universidade do Arizona e principal autora do estudo, em nota.

Segundo Tierney, apesar do Último Período Glacial ter sido muito estudado pela ciência, descobrir qual exatamente era a temperatura dessa época ainda era um desafio. Para acabar com esse mistério, ela e sua equipe desenvolveram modelos computacionais que traduziram dados provenientes de fósseis de plâncton para temperaturas equivalentes da superfície do mar. Por meio de uma técnica de assimilação, eles combinaram as informações fósseis com modelos de simulações climáticas da época.

Era do gelo

O Último Período Glacial foi caracterizado pela formações de grandes geleiras que cobriram metade das Américas do Norte e do Sul, além da Europa e partes da Ásia. “Mas o maior resfriamento ocorreu em altas latitudes, como o Ártico, onde foi cerca de 14 ºC mais frio do que hoje”, estima Tierney. Nessa época, flora e fauna adaptadas ao frio prosperaram.

As conclusões do artigo são compatíveis com o que se sabe sobre o comportamento dos polos terrestres em relação às mudanças climáticas. “Os modelos climáticos prevêem que as latitudes altas ficarão mais quentes mais rápido do que as latitudes baixas”, explica Tierney. “Quando você olha para as projeções futuras, fica muito quente no Ártico. Isso é conhecido como amplificação polar. Da mesma forma, durante o Último Período Glacial, encontramos o padrão reverso. Latitudes mais altas são apenas mais sensíveis às mudanças climáticas e permanecerão assim no futuro.”

Falando em futuro, os pesquisadores pretendem usar os mesmos modelos criados para a descobrir a temperatura da era glacial para aprender mais sobre antigos períodos quentes do planeta e, assim, compreender melhor as consequências do aquecimento global atual. “Se pudermos reconstruir climas quentes do passado, então podemos começar a responder a perguntas importantes sobre como a Terra reage a níveis realmente altos de dióxido de carbono e melhorar nossa compreensão do que as mudanças climáticas futuras podem trazer”, avalia Tierney.

Entendendo o passado e o presente

Saber a temperatura da era do gelo é importante para se estudar a sensibilidade do clima do planeta, principalmente em relação às mudanças de temperatura em resposta ao carbono na atmosfera.

Segundo o novo estudo, para cada duplicação do carbono atmosférico, a temperatura global deve aumentar em 3,4 ºC — valor que está de acordo com a média prevista por outros modelos climáticos, que fica entre 1,8 e 5,6 ºC.

Na era do gelo, os níveis de dióxido de carbono eram cerca de 180 partes por milhão, o que é muito baixo. Antes da Revolução Industrial, eles já estavam em 280 partes por milhão. Hoje, são 415 partes por milhão.

“O Acordo de Paris queria manter o aquecimento global a não mais do que 1,5 ºC em relação aos níveis pré-industriais, mas com os níveis de dióxido de carbono aumentando do jeito que estão, seria extremamente difícil evitar mais de 2 ºC de aquecimento”, disse Tierney. “Já temos cerca de 1,1 ºC em nossa faixa, mas quanto menos aquecermos, melhor, porque o sistema terrestre realmente responde às mudanças no dióxido de carbono.”

Galileu