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Vírus ancestral ativado pelo Sars-Cov-2 pode estar aumentando mortes em UTIs

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Retrovírus endógeno humano da família K (HERV-K) está associado ao agravamento e aumento da mortalidade da Covid-19, segundo pesquisa da Fiocruz (Foto: Mufid Majnun/Unsplash)
Retrovírus endógeno humano da família K (HERV-K) está associado ao agravamento e aumento da mortalidade da Covid-19, segundo pesquisa da Fiocruz (Foto: Mufid Majnun/Unsplash)

Um vírus ancestral, que infecta seres humanos há milhares de anos, está sendo ativado pelo coronavírusSars-CoV-2, e aumentando o número de mortes por Covid-19 em pacientes graves. Tal relação foi apresentada em um estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pré-publicado em 11 de maio, na plataforma Research Square.

De acordo com a fundação, a pesquisa pode ajudar a explicar por que alguns pacientes graves submetidos à ventilação mecânica deixam a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), enquanto outros não sobrevivem à doença.

O estudo indica que o retrovírus HERV-K, proveniente da família viral K, pode agravar a Covid-19 e provocar mortalidade precoce em alguns pacientes internados. Para chegar nessa conclusão, foram acompanhadas 25 pessoas em estado crítico e ventilação mecânica, que estavam hospitalizadas no Instituto D’Or (ID’Or), em São Paulo, e no Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemayer (IECPN), no Rio de Janeiro.

Os participantes tinham em média 57 anos de idade e a progressão de seus casos estava sendo associada sobretudo a problemas como inflamação descontrolada, hipoxia (falta de oxigênio nos tecidos) e coagulopatia, que engloba distúrbios de coagulação e hemorragia.

Sars-CoV-2, o vírus da Covid-19 (Foto: Divulgação/National Institute of Allergy and Infectious Diseases)
Sars-CoV-2, o vírus da Covid-19, pode atuar como ‘gatilho’ para a atuação do retrovírus HERV-K (Foto: Divulgação/National Institute of Allergy and Infectious Diseases)

Uma análise de amostras da secreção da traquéia dos pacientes mostrou que havia níveis altos do retrovírus HERV-K, quando as coletas foram comparadas a exames de pessoas com casos brandos de Covid-19 ou não infectadas por nenhum vírus.

“Verificamos o viroma de uma população com uma altíssima gravidade, em que a taxa de mortalidade chega a 80% para ver se algum outro vírus estava coinfectando esse paciente que está debilitado, imunossuprimido”, conta Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), em comunicado.

“A nossa surpresa foi encontrar esses altos níveis de retrovírus endógeno K. É o tipo de pesquisa que parte de uma abordagem completa não enviesada. Isso dá muita força, muita credibilidade ao achado”, completa Moreno.

Origem remota 

O HERV-K é um retrovírus endógeno, o que significa que ele é um ancestral que infectava o genoma humano no passado, quando humanos e chimpanzés ainda estavam se separando durante a evolução. Alguns elementos genéticos presentes nos nossos cromossomos narram até hoje toda essa história.

Todavia, a maioria dos retrovírus endógenos fica silencioso na maior parte de sua vida. O que ocorre, entretanto, é que o vírus Sars-CoV-2 tem reativado o agente infeccioso primitivo, como uma espécie de “gatilho”, segundo os cientistas.

O resultado é possivelmente perigoso: a taxa de morte em pacientes graves com Covid-19 chega a 50% entre os que apresentam altos níveis de HERV-K. Não por acaso, um aumento da quantidade de retrovírus foi observada também em laboratório quando células saudáveis foram infectadas pelo Sars-CoV-2.

Vírus ancestral foi detectado em grupo de pacientes que apresentou mortalidade de 80% (Foto: Universidade Johns Hopkins)
Vírus ancestral foi detectado em grupo de pacientes que apresentou mortalidade de 80% (Foto: Universidade Johns Hopkins)

Além disso, fatores de coagulação foram afetados, ocorreram mais processos inflamatórios e as células do sistema imune tiveram menos meios necessários para que sobrevivessem. “Esses níveis de HERV-K se correlacionaram com o que se chamou de mortalidade precoce, como menos de 28 dias de internação”, conta Moreno. 

O retrovírus também aparece junto a outras doenças, como câncer e esclerose múltipla. Detectar precocemente esse invasor pode reforçar o uso de estratégias de tratamento como uso de anticoagulantes e anti-inflamatórios.

Porém, ainda não se sabe ao certo por que algumas pessoas ficam mais graves e morrem e outras não. “Talvez o sinal para o silenciamento de determinados retrovírus endógenos seja mais forte em algumas pessoas do que em outras”, supõe o pesquisador que coordenou o estudo.

Galileu